Tuesday, August 14, 2007

BAR IV


Constituindo realidades...

“A polícia é assim, antes de mais nada, uma ordem dos corpos que define as divisões entre os modos do dizer , que faz que tais corpos sejam designados por seu nome para tal lugar e tal tarefa; é uma ordem do visível e do dizível que faz com que essa atividade seja visível e outra não o seja, que essa palavra seja entendida como discurso e outra como ruído. (...)

Proponho agora reservar o nome de política a uma atividade bem determinada e antagônica à primeira: a que rompe a configuração sensível na qual se definem as parcelas e as partes ou sua ausencia a partir de um pressuposto que por definição não tem cabimento ali: a de uma parcela dos sem-parcela. Essa ruptura se manifesta por uma série de atos que reconfiguram o espaço, onde as partes, as parcelas e as ausências de parcelas se definiam. A atividade política é a que desloca um corpo do lugar que lhe era designado ou muda a destinação de um lugar; ela faz ver o que não cabia ser visto, faz ouvir um discurso o que só era ouvido como barulho. Pode ser a atividade dos plebeus de Ballanche que fazem uso de uma palavra que ‘não tem’. Pode ser a desses operários do século XIX que colocam em razões coletivas relações de trabalho que só dependem de uma infinidade de relações individuais privadas. Ou ainda a desses manifestantes de ruas ou barricadas que literalizam como ‘espaço público’ as vias de comunicação urbanas. Espetacular ou não, a atividade política é sempre um modo de manifestação que desfaz as divisões sensíveis da ordem policial ao atualizar uma pressuposição que lhe é heterogênea por prinicipio, a de uma parcela dos sem-parcela que manifesta ela mesma, em ultima instancia a pura contingencia da ordem, a igualdade de qualquer ser falante com qualquer outro ser falante. Existe política quando existe um lugar e formas para o encontro entre dois processos heterogêneos. O primeiro é o processo policial no sentido que o tentamos definir. O segundo é o processo da igualdade. Entendamos provisioriamente sob esse termo o conjunto aberto das práticas guiadas pela suposição da igualdade de qualquer ser falante com qualquer outro ser falante e pela preocupação de averiguar essa igualdade.

A formulação dessa oposição exige algumas precisões e acarreta alguns corolários. Antes de tudo, não faremos da ordem policial assim definida a noite onde tudo se equivale. A prática dos citas de furar os olhos de seus escravos e das estratégias modernas da informação e da comunicação que, ao contrário, abrem infinitamente os olhos, prendem-se ambas a polícia. Não tiraremos de forma alguma a conclusão niilista de que uma e outra se equivalem. Nossa situação é em tudo melhor que a dos escravos dos citas. Há a polícia menos boa e a melhor – não sendo a melhor, aliá,s a que segue a ordem supostamente natural das sociedade ou a ciência dos legisladores, mas a que os arrombamentos da lógica igualitária vieram na maioria das vezes afastar de sua lógica ‘natural’. A polícia pode proporcionar todos os tipos de bens, e uma polícia pode ser infinitamente preferível a uma outra. Isso não muda sua natureza, que é a única coisa aqui em questão. O regime da opinião sondada e da exibição permanente do real é hoje a forma comum da polícia nas sociedades ocidentais. A polícia pode ser doce e amável. Continua sendo, mesmo assim, o contrário da política, e convém circunscrever o que cabe a cada uma delas. É assim que muitas questões tradicionalmente repertoriadas como questões sobre as relações da moral e da política, só tratam, a rigor, das relações da moral e da polícia. Saber, por exemplo, se todos os meios são bons para assegurar a tranqüilidade da população e a segurança do Estado é uma questão que não depende do pensamento político – o que não significa que não possa fornecer o lugar de uma intervenção transversal da política. É assim também que a maior parte das medidas que nossos clubes e laboratórios de ‘reflexão política’ imaginam para mudar ou renovar a política aproximando o cidadão do Estado, ou o Estado do cidadão oferece, na verdade, a política sua mais simples alternativa: a da simples polícia. Pois é uma figuração da comunidade própria à polícia aquela que identifica cidadania como propriedade dos indivíduos passível de se definir numa relação de maior ou menor proximidade entre o seu lugar e o do poder público. Quanto à política, ela não conhece relação entre os cidadãos e o Estado. Ela conhece apenas dispositivos e manifestações singulares pelos quais às vezes há uma cidadania que nunca pertence aos indivíduos como tais.

Não se deve esquecer também que, se a política emprega uma lógica totalmente heterogênea à da polícia, está sempre amarrada a ela. A razão disso é simples. A política não tem objetos ou questões que lhe sejam próprios. Seu único principio, a igualdade, não lhe é próprio e não tem nada de político em si mesmo. Tudo o que ela faz é dar-lhe uma atualidade sob a forma de caso, inscrever, sob a forma de litígio, a averiguação da igualdade no seio da ordem policial. O que constitui o caráter político de uma ação não é o seu objeto ou o lugar onde é exercida mas unicamente sua forma, a que inscreve a averiguação da igualdade na instituição de um litígio, de uma comunidade que existe apenas pela divisão. A política encontra em toda a parte a polícia. Ainda se deve pensar esse encontro como encontro dos heterogêneos. Deve-se para isso renunciar ao beneficio de alguns conceitos que asseguram por antecipação a passagem entre os dois campos. O conceito de poder é o primeiro desses conceitos. Foi ele que permitiu, outrora, que uma certa boa vontade militante assegurasse que ‘tudo é político’, já que por toda a parte há relações de poder. A partir disso podem separar-se a visão sombria de um poder presente em toda a parte e a todo instante, a visão heróica da política como resistência ou a visão lúdica dos espaços de afirmação criados por aqueles e aquelas que viram as costas à política e a seus jogos de poder. O conceito de poder permite concluir de um ‘tudo é policial’ um ‘tudo é politico’. Ora, a consequencia não é boa. Se tudo é político, nada o é. Se então é importante mostrar, como Michel Foucault o fez magistralmente, que a ordem policial se estende para muito além de suas instituições e técnicas especializadas, é igualmente importante dizer que nenhuma coisa é em si política, pelo único fato de exercerem-se relações de poder. Para que uma coisa seja política, é preciso que suscite o encontro entre a lógica policial e a lógica igualitária, a qual nunca está pré-constituída.”

(Jaques Rancière “O Desentendimento” p. 43-4)

Friday, August 10, 2007

RITUAIS DE ADORAÇÃO

Rafael Prosdocimi

Cheiro de gente velha. Suor impregnado nas mesas, no chão. Cheiro de choro. Traição. Briga. Gozos alucinatórios. Tudo isso que marca gente que vive e não toma prozac. Escutando uma música me veio essas alucinações olfativas (e que um psiquiatra mal humorado não me escute).

A música (obviamente um samba), nas vozes cansadas de Roberto Ribeiro e Clara Nunes me elevaram a esse mundo cheio de intenção e beleza.

Faltou risos e a visão sempre libertadora de um copo lagoinha cheio de cerveja. Alguns sorrisos de paisagem. Mulheres feias, algumas gordas e velhas, mas todas portas-bandeiras. E todas cheias de falsas malícias e decotadas, umas mais e outras menos. O pudor, dependure na cadeira e apenas vá sambar...

Monday, July 30, 2007

Encontro com a solidão. Sem muitas ou meias palavras. Frases curtas para sofrimentos que não tem fim. A solidão é ainda monossilábica. Indiálogável, intratável, seca, estéril, calma. O encontro com a solidão é sempre um reencontro. Nessa tarde sem tempo, sem vida, ela me traz a certeza incapaz de discrições de sua eternidade. A solidão sopra nos meus ouvidos o desespero. Mas o desespero vazio. O desespero sem vós. A solidão me lembra do que nunca vai acontecer. De uma felicidade que é palavra, e letras.

A solidão é a certeza de uma morte inodora, indolor, silenciosa, irrevogável. A solidão que encontro nessa tarde se soma aos milhares de pequenos momentos tristes da vida. Me fazem saber que meu corpo é um corpo, não sonho e nem fantasia.

Thursday, July 19, 2007

BAR III

País Dificil

Rubem Braga

Há hoje no Brasil uma espécie de preciosismo técnico-burocrático que vai complicando os problemas com uma terminologia tão pedante que desespera. Isso se manifesta em vários ramos; pululam técnicos em alergias crepusculares, em padronização do tamanho de clipes e em sociologia das ruas transversais. Parece que estamos em país sofisticadíssimo, superfino, e há sujeitos que não dormem porque não têm certeza de que conseguirão penicilina se por acaso precisarem de penicilina. Chegamos à perfeição de ver entre os pontos de exame no Itamarati para carreira diplomática à discussão da autoria das Cartas Chilenas , devendo o estudante saber quem era a favor desta e daquela tese e quais os argumentos de um lado e de outro. Descobriu-se, subitamente, a necessidade inadiável dos rapazes aprenderem latim ou grego. Surgiram de uma hora para outra estudiosos de questões especialíssimas, mil críticos de Proust e técnicos em estados corporativos.

É por causa de tudo isso que um homem simples às vezes leva um choque quando repara em alguma coisa simples. Eu, por exemplo, tive outro dia entre as mãos o resultado de inquéritos de laboratórios feitos em vários lugares da Amazônia e do Rio Doce sobre vermes intestinais. Praticamente 100 por cento dessas populações sofrem de vermes. A grande maioria é opilada e quase nunca há um verme só na barriga de cada sujeito; em geral o sujeito acumula várias espécies. Ora, isso não é novidade nenhuma. Todo mundo sabe que nossas populações rurais são cheias de vermes, que o homem do campo é quase sempre opilado e tem no ventre uma série de bichinhos que sugam o seu sangue e escangalham sua saúde. Ninguém ignora isso – mas acontece que isso não está na moda. O que está na moda é ter alergia de pena de Peru. Um outro relatório que vi, contava a história de um médico que foi chamado a certo lugar do interior para combater uma “doença misteriosa” que estava matando o pessoal. Devia ser, com certeza, uma dessas doenças que a gente adquire lendo Seleções e tem um nome tão interessante que dá vontade pôr no cartão de visita. O médico, um desses médicos do interior, meio rude, que vive isolado da nossa grande civilização carioca, chegou à seguinte e estúpida conclusão: a doença mistérios era fome. Outra coisa fora de moda, outro problema sem atualidade. O importante hoje é fazer uma intensa campanha no sentido de convencer a todas as pessoas cultas de que o complexo vitamínico JM, que se encontra em grandes proporções no cabinho das azeitonas pretas, só tem valor contra a tendência a soluçar de madrugada quando combinado com a aplicação de raios infralilases sob as unhas da mão esquerda.

Graças a tudo isso o nível cultural do país vai subindo assustadoramente. Está visto que essas transformações têm suas vantagens. Por exemplo: antigamente um funcionário postal morria decentemente de tuberculose, deixando toda a família na miséria. Hoje apesar de todas as dificuldades criadas pela guerra, ele ainda pode conseguir o mesmo, desde que cumpra todas as formalidades exigidas pelos dasps e ipases.

Sei uma anedota que é um pouco velha, mas pode ser que algum leitor não conheça. É a história do sujeito que tinha um papo enorme e enjoou de consultar médicos e mais médicos. Não havia meio do papo sair. Afinal um conhecido desse que sabia de um remédio formidável: graxa de sapatos.

“-Esquente um pouquinho a lata de graxa e passe bem devagar pelo papo, com um paninho. Depois descanse uns cinco minutos e passe outra vez pegue então um pedaço de flanela e esfregue com todo o cuidado; quanto mais esfregar, melhor.

-Mais isso cura mesmo o papo?

-Bem, se cura não sei, mas dá um brilho formidável!”

Oh, graxas, vaselinas, iapeterques, ipasitiquins.


MARÇO DE 1944

Thursday, July 12, 2007

BAR II

Nietzsche - Gaia Ciencia

373. A Ciência como preconceito. – (...) O mesmo se dá com a crença hoje em dia satisfaz tantos cientistas naturais materialistas, a crença num mundo que deve ter sua equivalência e medida no pensamento humano, em humanos conceitos de valor, “um mundo da verdade”, a que pudéssemos definitivamente aceder com a ajuda de nossa pequena e quadrada razão- como? Queremos de fato permitir que a existência nos seja de tal forma degradada a mero exercício de contador e ocupação de matemáticos? Acima de tudo não devemos querer despoja-la de seu caráter polissêmico: é o bom gosto que o requer, meus senhores, o gosto da reverencia ante tudo o que vai alem do horizonte! Que a única interpretação justificável do mundo seja aquela em que vocês são justificados, na qual se pode pesquisar e continuar trabalhando cientificamente no seu sentido (querem dizer, realmente, de modo mecanicista?), uma tal que admite contar, calcular, pesar, ver, pegar e não mais que isso. é uma crueza e uma ingenuidade, dado que não seja doença mental, idiotismo.(...) Não seria antes bem provável que justamente o que é mais superficial e exterior na existência- o que ela tem de mais aparente, sua sensualização, sua pele – fosse a primeira coisa a se deixar apreender? Ou talvez a única coisa? Uma interpretação do mundo “cientifica”, tal como a entendem, poderia então ser uma das mais estúpidas, isto é, das mais pobres de sentido de todas de todas as possíveis interpretações do mundo: algo que digo para o ouvido e a consciência de nossos mecanicistas que hoje gostam de se misturar-se aos filósofos e absolutamente acham que a mecânica é a doutrina das leis primeiras e últimas, sobre as quais toda existência deve estar construída, como sobre um andar térreo. Mas um mundo essencialmente mecânico seria um mundo essencialmente desprovido de sentido! Suponha-se que o valor de uma música fosse apreciado de acordo com o quanto dela se pudesse contar, calcular, por em formulas- como seria absurda uma tal avaliação “cientifica”da música! O que se teria dela apreendido, entendido, conhecido? Nada, exatamente nada daquilo que nela é de fato música!... p.276-8

Tuesday, July 03, 2007

E a vida, (ela também tem sua loucura)

Escrever da vida é escrever do que penso, quero, faço, devia fazer, sou. O que movimenta minhas pupilas, me dá animo, tesão, profundo desespero, melancolia, angustia. Aquilo que salta de meus dedos. Aquilo que acho importante, mas as minhas fraquezas, as minhas coisas torpes e vazias ficam guardadas comigo e não vão para você. Acho feio compartilhar mesquinharias. A cada um a medida certa de seu sofrimento, conforme sua capacidade de lidar com ele.

O ser humano se desenvolve de uma maneira peculiar de uma forma ainda e sempre estranha. Porque lembro de uma aula da quarta série sobre como proceder para achar uma palavra no dicionário, não acho que isso possa ser facilmente deduzido por qualquer teoria psicológica. Palavra mais que importante é o contingente. O espacinho que pequeno cabe Deus, o amor, o mistério, o desconhecido, as vezes o acaso, o nada. Nenhum mistério. Devemos prestar mais atenção no contingente. As crianças se deixam levar pelo contingente e penso que é por isso que não concebemos como uma criança aprende. Estamos atados às finalidades da aprendizagem e esquecemos que a criança não. Ela ali sentada e se atém a qualquer coisa. Por isso insistem os professores, já constatando o fracasso em impedir que as crianças se distraiam, que por favor todos “prestem atenção”. Inútil. Na sala de aula, olhando pro professor, na frente, escrevendo no quadro 2+2, já se encontra presente todo o espaço possível para aprender algo da vida que não 2+2. Dessa forma, acho que o que se chama socialização deveria ser levado mais a sério, e mais à brincadeira, retomando o papel do contingente. Acredito que a democracia deixará de ser farsa quando poder fazer representar mesmo, sem fingir eliminar ou mascarar, os mecanismos de controle do mundo. Os poderes que regem as ações e locomoções dos seres humanos. Quando as pessoas num sentido geral e especifico se verem identificadas com aquilo que fazem. Mesmo que seja errado. Acredito que o mundo vai ser organizado de tal forma que logo isso aqui vai ser apenas filosofia ou literatura. Abstrações ingênuas de um rapaz que queria ser escritor sem ser. Se temos psicólogos que entendem da mente das pessoas, ou se temos cientistas sociais que entendem como será uma boa sociedade, então para quê cada um tomar conta da sua vida? Conta só a do psicanalista ou do sociólogo. E à vista, por favor. Creio em corpo, hormônio, genética, evolução. Creio num sentido filogenético de desenvolvimento da espécie, mas nada me dizem de particular e restrito. Imagem, pensamento, ação, discurso, seguem linhas mais prosaicas e contingentes. O que não significa que não devem ou merecem ser analisadas, mas de uma forma diferente do que se faz em relação ao necessário. Já que o contingente é contingente exatamente por não ser necessário, e não desenvolver nenhum tipo de relação imutável e eterna de causalidade. Acredito que a psicologia social deve se investigar a toda hora e depurar seus dois vícios, que dever ser até mais. Psicologismo e sociologismo. Individualismo e coletivismo. Dialética deve ser mais do que uma palavra difícil e de significado nebuloso. Não dá pra investigar as ações de um sujeito e depurá-lo de toda a sujeira. Ou seja, de tudo aquilo que o faz ser ele. O mal do mundo continua sendo a rotina, a massificação, a coisificação, o capitalismo e a burocracia, a indiferenciação que encarna em tudo e em todos, e ninguém nem mais se atina que isso aqui foi um jogo que começou, e logo pode parar. O pensamento continua não criando a realidade, mas a realidade cria muito pensamento, inclusive o pensamento de que pensamento cria realidade. Os abismos já profundos, não aumentam de altura, mas de largura. O fosso tem a mesma profundidade. Aumenta a distancia que nos separa dos outros e as formas de chegar ali. A ilusão da comunidade humana perpetua a idéia de que não há fosso nem separação. A burguesia ainda é burguesia e esperamos que a tal revolução de 1789 chegue também, porque sinto que ela se perdeu por aí. Talvez na Groenlândia.

Saturday, June 23, 2007

Bar I

-RAIZES SUBJETIVAS DO PROJETO REVOLUCIONÁRIO

(trecho do livro A Instituição Imaginária da Sociedade – Cornelius Castoriadis, Pp111-116 )

"Às vezes ouvimos dizer: esta idéia de uma outra sociedade apresenta-se como um projeto, mas em verdade é apenas a projeção de desejos não confessados, disfarce de motivações que permanecem escondidas para os que as utilizam. Ela só serve para veicular, em alguns um desejo de poder; em outros, a recusa do principio da realidade, o fantasma de um mundo sem conflitos no qual todos estariam reconciliados com todos e cada um consigo mesmo, um sonho infantil que desejaria suprimir o lado trágico da existência humana, uma fuga permitindo viver simultaneamente em dois mundos, uma compensação imaginária.

Quando a discussão toma tal rumo, é preciso inicialmente lembrar que estamos todos no mesmo barco. Ninguém pode afirmar que o que diz não tem ligação com desejos inconscientes ou motivações que não confessa a si mesmo. Quando ouvimos ‘psicanalistas’ de uma determinada tendência qualificar, a grosso modo, todos os revolucionários de neuróticos, só podemos nos felicitar por não compartilhar de sua ‘saúde’ de Monoprix e seria facílimos descascar o mecanismo inconsciente de seu conformismo. (...)

Tenho o desejo e sinto a necessidade, para viver, de uma outra sociedade diferente dessa que me rodeia. Como a grande maioria dos homens, posso viver nesta aqui e me acomodar-me - de qualquer forma, vivo nela. Por mais criticamente que tente olhar-me, nem minha capacidade de adaptação, nem minha assimilação da realidade me parecem inferiores ao meio sociológico. Não peço a imortalidade, a ubiqüidade, a onisciência. Não peço que a sociedade ‘me dê a felicidade’; sei que isso não é uma ração que poderia ser distribuída pela municipalidade ou pelo Conselho operário do bairro, e que, se esta coisa existe, somente eu posso construí-la para mim, nas minha medidas, como já me aconteceu, como ainda me acontecerá, sem dúvida. Mas na vida, como ela é feita para mim e para os outros, entrechoco-me com uma quantidade de coisas inadmissíveis, digo que elas não são fatais e que decorrem da organização da sociedade. Desejo e peço que antes de tudo meu trabalho tenha um sentido, que eu possa aprovar aquilo a que lhe serve e a maneira como é feito e que me permite entregar-me a ele verdadeiramente e usar minhas faculdades bem como enriquecer-me e desenvolver-me. E digo que isso é possível, com uma outra organização da sociedade, para mim, e para todos. Digo que já seria uma mudança fundamental nesse sentido, se me deixassem decidir, com todos os outros, o que tenho a fazer, e, com meus companheiros de trabalho como fazê-lo.

Desejo poder, com todos os outros, saber o que se passa na sociedade, controlar a extensão e a qualidade da informação que me é dada. Peço para poder participar diretamente de todas as decisões sociais que podem afetar minha existência ou o curso geral do mundo em que vivo. Não aceito que meu destino seja decidido, dia após dia, por pessoas cujo projetos me são hostis ou simplesmente desconhecidos e para quem não passamos eu e todos os outros, de números num plano ou peões sobre um tabuleiro de xadrez e que em ultima análise, minha vida e morte estejam nas mãos de pessoas que sei serem necessariamente cegas.

Desejo poder encontrar o outro como um ser igual a mim e absolutamente diferente, não como um número, nem com um sapo empoleirado sobre outro degrau (inferior ou superior, pouco importa) da hierarquia dos rendimentos e dos poderes. Desejo poder vê-lo e que ele possa ver-me como um outro ser humano, que nossas relações não sejam um campo de expressão de agressividade, que nossa competição permaneça dentro dos limites do jogo, que nossos conflitos, na medida em que não possam ser resolvidos ou superados, digam respeito a problemas e lances reais, envolvam o mínimo possível do inconsciente, o mínimo possível de imaginário. Desejo que o outro seja livre porquanto a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro, e sozinho posso no máximo ser ‘virtuoso na infelicidade’. Não espero que os homens se transformem em anjos, nem que suas almas tornem-se puras como lagos da montanha – que aliás sempre me entediaram profundamente. Sei, porém, o quanto a cultura atual agrava e exaspera a sua dificuldade de ser e de ser com os outros e vejo que ela multiplica ao infinito os obstáculos à sua liberdade.

Sei, certamente , que esse desejo não poder ser realizado atualmente; nem também a revolução se ocorresse amanhã, poderia realizar-se integralmente durante a minha vida. Sei que haverá homens um dia para os quais não existirá nem mesmo a lembrança dos problemas que possam mais nos angustiar hoje. É esse o meu destino, o qual devo assumir a assumo. Mas isso não pode reduzir-me nem ao desespero, nem à ruminação catatônica. Tendo esse desejo que é meu, só posso trabalhar para a sua realização. E já na escolha que faço do principal interesse da minha vida, no trabalho a que me consagro, cheio de sentido para mim (mesmo se nele encontro, e aceito, o fracasso parcial, os prazos, os desvios, as tarefas em si mesmas sem sentido), no participar de uma coletividade de revolucionários que tenta ultrapassar as relações reificadas e alienadas da sociedade atual – estou em condição de realizar parcialmente esse desejo. Se eu tivesse nascido numa sociedade comunista, a felicidade ter-me-ia sido mais fácil – nada sei e nada posso quanto a isso. Não vou, sobre esse pretexto, passar meu tempo livre vendo televisão ou lendo romances policiais.

Será que minha atitude significa recusar o principio da realidade? Mas qual é o conteúdo deste principio? É o que é preciso trabalhar – ou então que é preciso que necessariamente o trabalho seja desprovido de sentido, explorado, contradiga os objetivos pelos quais supostamente ocorre? E esse principio valerá sob esta forma para alguém que vive de rendas? Valeria ele, sob esta forma para os indígenas da ilha Trobiand ou de Samoa? Vale ela ainda hoje, para os pescadores de uma pobre aldeia mediterrânea? Até que ponto o princípio da realidade manifesta a natureza e onde começa a manifestar a sociedade? Até onde manifesta a sociedade como tal e a partir de onde tal forma histórica da sociedade? Por que não a servidão, as prisões os campos de concentração? De onde pois uma filosofia extrairia o direito de dizer-me: aqui nesse milímetro preciso das instituições existentes vou mostrar-lhe a fronteira entre o fenômeno e a essência, entre as formas históricas passageiras e o ser eterno do social? Aceito o principio da realidade, porque aceito a necessidade do trabalho (enquanto aliás, for real, pois torna-se cada dia menos evidente) e a necessidade de uma organização social do trabalho. Mas não aceita a invocação de uma falsa psicanálise e de uma falsa metafísica, que introduz na discussão precisa das possibilidades históricas afirmações gratuitas sobre impossibilidades sobre as quais ela nada sabe.

Será meu desejo infantil? Mas a situação infantil, é que a vida nos é dada, e que a Lei nos é dada. Na situação infantil, a vida nos é dada para nada e a Lei é dada sem nada, sem mais, sem discussão possível. O que quero é exatamente o contrário: é fazer minha vida, e dar a vida se possível, pelo menos dar para a minha vida. É que a Lei não me seja simplesmente dada, mas que eu a dê a mim mesmo. Quem permanece na situação infantil é o conformista ou apolítico: pois aceita a Lei sem discuti-la e não deseja participar da sua formação. Aquele que vive na sociedade sem vontade em relação à Lei, sem vontade política, somente substitui o pai particular pelo pai social anônimo. A situação infantil é, de início, receber sem dar, em seguida fazer ou ser para receber. O que eu quero é uma troca justa para começar e a superação da troca em seguida. A situação infantil é a relação dual, a fantasia da fusão – e, nesse sentido, é a sociedade atual que infantiliza constantemente todo mundo, pela fusão no imaginário com entidades irreais: os chefes, as nações, os cosmonautas, ou os ídolos. O que eu quero é que a sociedade deixe enfim de ser uma família, falsa além do mais até o grotesco, que ela adquira sua dimensão própria de sociedade, de rede de relações entre adultos autônomos.

Perseguiria eu a quimera de querer eliminar o lado trágico da existência humana? Parece-me mais certo que quero eliminar o melodrama, a falsa tragédia – aquela onde a catástrofe chega sem necessidade, onde tudo poderia ter-se passado de outro modo se apenas os personagens tivessem sabido isto ou feito aquilo. Que pessoas morram de fome na Índia, ao mesmo tempo em que na América ou Europa os governos instituam penalidades para os camponeses que produzem ‘muito’ – é uma farsa macabra, é o Grand Guinol onde os cadáveres e o sofrimento são reais, mas não é a tragédia, não existe nisso nada de inevitável. E se a humanidade perecer um dia sob os efeitos de bombas de hidrogênio, recuso-me a chamar isso de tragédia. Chamo de imbecilidade. Quero a supressão do Guignol e da transformação dos homens em fantoches por outros fantoches que os ‘governam’.”

Friday, June 22, 2007

CAIXA DE RESSONÂNCIA


Só há causa naquilo que manca, como só há atenção e cuidado para a criança que chora. As que choram mais alto serão atendidas primeiro, por favor. Psicólogos? Não, somos, de fato, apenas policiais. Defendemos a intocável, inabalável e certeira senhora Vida, e o senhor “Tempo É Dinheiro”, muito ocupado que são esses dois. Nossa função, clara e límpida, é a suja produção dessa monótona repetida e triste realidade. Não atrapalhar nem as pessoas importantes (e o que fazer com as não-importantes?), e nem as coisas que devem naturalmente ocorrer (mas quais... meu Deus?).

O rio que não mais existe, pois passará ali, agora, ou amanhã, uma estrada larga e com financiamento internacional, faz chorar uma velha que pescou lambaris e piaus e que quer cobrar do senhor governador do Estado, ou presidente, os 7 lambaris de outrora. Ele diz poder pagar 1.000 reais, mas ela insiste em querer 7 lambaris, nem mais, nem menos. Ela está indignada com a ordem natural das coisas que baixam avenidas e estradas onde passavam rios. Chamem rápido uma psicóloga pra conversar com aquela dona ali. E lá vou eu, achando que faço da vida meu picadeiro, improvisando meus dedilhados nas relações humanas frescas e existenciais. E a moça, a senhora, perdão, depois de conversar comigo se mostrará logo iludida por um passado que definitivamente não há, nem houve. Não ouve. Você não ouviu. Viu choro, e desespero pueril, quando havia argumento. Nós, psicólogos sociais, especialistas dos problemas humanos, não pensamos em qual tipo de problema nós somos especialistas. Nem qual o repertório de soluções que nós temos. Principalmente, nós que iremos ocupar as equipes técnicas, mas sempre inter ou multidisciplinares dos que decidem sobre as vidas dos pobres, pra ser correto e direito, e também direto. Nós que nos preocupamos com o social, e que iremos ocupar as secretarias de saúde, educação e trabalho, e as ongs, terceiros (quase segundos) setores, e OSCIPS (haja malabarismo institucional), seremos responsáveis pelo silêncio consentido entre as partes daqueles que não cabem mais parte alguma, a não ser ficar calado. Àqueles aos quais a vida se sustenta sobre a manutenção de índices sociais que devem garantir a reeleição de alguém ou uma nova candidatura a um cargo mais elevado. Esses índices sempre passíveis de serem testados, em CNTP, há um quartil abaixo. Nosso trabalho é garantir esse mínimo. Garantir que a pessoa em questão vá entender, “pelamordedeus”, que nesse lugar onde você construiu sua casa, passará uma avenida larga e grande que vai trazer benefícios pra todo mundo na cidade (incluir números e cifras, e rápido), que por fim, se houver mais uma resistência, resta a ameaça de chamar o advogado e rever a legalidade do terreno dessa dona que “se diz” proprietária, e por ai vamos testando a racionalidade desse povinho, mas olha o politicamente incorreto. Ou seja, nosso objetivo é o silencio, o consenso sem discussão, o apagamento de discursos, o abaixamento da poeira toda que ta aí, grudada nas relações, na vida nossa de todo dia. Seja, na escola, na prefeitura, nos projetos sociais. Muito bom, acordar pela manhã e dizer: o sistema ta funcionando, a sociedade, se reproduz como espécies no cio, a não ser por aquelas pessoas ali que fazem barulho, e aí vocês já sabem... chamem os psicólogos... Se não funcionar chamem a polícia (essa segunda linha de combate).

Há dias, e haverá muito mais, no qual teremos a certeza do poder de vida que temos, não como magia, mas como possibilidade de fazer falar muitos mundos no mundo, nas relações. Veremos que nossa apoliticidade, nosso relativismo, nossa primazia do privado, assenta-se num absoluto desprezo pelos sujeitos outros do mundo, revela a nossa assinatura bela e plástica nos tratados mais preconceituosos e discriminatórios dos projetos de modernidade. Saberemos, portanto, que nunca houve barulho. Há falas e discursos menos e mais articulados com uma ou outra questão. Veremos que os discursos requerem recolocação numa cadeia tal, interrompida exatamente por nós, e que o lugar que ocupamos é exatamente esse, o da interrupção. Somos represas. Não deixamos os sujeitos e suas palavras passarem. Proponho funcionarmos como uma caixa de ressonância. Fomos colocados estrategicamente nos lugares no qual há barulho, se há barulho, há problema, há questão, há conflito. Proponho deixarmos reverberar, ressonar todo esse barulho nos seus termos, nas suas perguntas, nos seus anseios. Que o sistema social democrático e plural lide com os belos sons que vem da rua e que nós só vamos silenciando, pela vida a fora.

Monday, June 11, 2007

BASTIDORES I

Mas...Me diz aqui, foram 7 ou 6 Km?

Sei lá cara, mas vão pôr 7, tem essa coisa de ser um número canibalismo...

Canibalismo... ce é retardado mental né...é cabalístico, pô...piada...

Pois é então. Ficou assim: “João Hélio, de 6 anos de idade foi arrastado por 7 km! E você não fez nada!!”

Olha só...pensa comigo, eu até entendo que você queria mobilizar as pessoas e tal. Eu sei que é importante aquela dona da esquina ver a placa e chorar e blablabla, imaginando a carne do menino ficando pelo asfalto, seus ossos raspando..

Porra bicho, que merda, pára com isso...

Olha só, que tipo de publicitariozinho de merda você é... Nós temos que aprender como afetar mais internamente todas as pessoas que verão esse anúncio. Já que é um convite para esse seminário, é bom mobilizar muita gente, e o caso do menino, é o que mais mexe com as pessoas. Eu mesmo, por mais escroto que seja, não consegui parar de chorar quando a coisa aconteceu.

Mas é muito estranho isso né...O negócio aconteceu já faz um tempo lá no Rio de Janeiro, aposto que acontece isso e pior todo dia por aí aqui do lado da gente... Mas os caras insistiram porque insistiram que nós usássemos esse caso como tema do convite. Meio bizarro ficar lembrando a morte desse menino todo dia né... Daqui a pouco a mãe vai querer receber royalties pelo nome dele sendo usado assim por qualquer imbecil... Menino morrendo de morte “punk” tem um tanto por aí...Ontem mesmo, morreu um menino lá perto de casa, na base da paulada...Parece até mesmo que foi o pai dele... ou padrasto sei lá..

Mas ele tinha quantos anos?

Ah, uns 12..

Aí, 12 já ta velho pra dá ibope.

Eu acho tudo isso muito escroto e to puto, e vão acabar logo que eu to a fim de tomar uma...

Tá. Mas achei a sua frase ruim. Sabe porque...porque a dona Luzia, desempregada, la do bairro da Piedade, não tinha como fazer nada quando o menino morreu. Então não fica bom culpar a dona Luzia, porque ela não tinha comoajudar, entendeu?

É verdade, nem pensei nisso...Acho que só importa o nome do menino mesmo, e os 7 Km... concordo contigo. Vão colocar assim: “João Hélio, de 6 anos de idade foi arrastado por 7 km! Vamos tomar alguma atitude?”. E aí...o que que ocê achou?

É..é...gostei... acho que ficou bom. Ao mesmo tempo que denuncia o absurdo propõe algo pras donas de todo meu Brasil fazerem. Ficou bom... O problema é que tem aquela caninha que chama atitude né... Aí tem sempre um gozador que fica aí falando assim, vão lá tomar uma atitude...entende...?

Num conhecia essa caninha não...Só a “providência”. Talvez a gente podia mudar. O que que você acha? Talvez, “vamos fazer alguma coisa”. Ou venha nos ajudar a pensar em alguma coisa.”

Essa última tá ruim. Parece que a gente não sabe o que fazer. A gente não, o pessoal do congresso. E a primeira pode incitar o povo a alguma coisa do tipo fazer a justiça com as próprias mãos e isso pode ser ruim pra gente.

Vão pôr aquilo mesmo. “João Hélio, de 6 anos de idade foi arrastado por 7 km! Vamos tomar alguma atitude?”. Bom, então tá, vão mandar pros caras, se eles acharem ruim, tudo bem a gente muda. Senão fica isso mesmo, certo?

Ta bom. Isso, se tiver algum problema depois a gente pensa mais nisso. E vão logo pro boteco tomar uma providencia então, ou quem sabe uma atitude, heheheh....

Sunday, June 03, 2007

TIRAR A VIDA PARA A POESIA

Rafael Prosdocimi

É ela... é ela...

Somente a poesia enche nosso peito, nossos pulmões de sentido, de nomes de amor. De ar, o alimento de devaneios que se pedem e me perdem. Que nos faz inspirar, e sentir na inspiração uma íntima troca com o mundo. Tirei a noite de ontem para a poesia. Foi fácil olhar pros lados como se não soubesse que eram lados aqueles. O show que acontecia a frente tinha às suas costas uma lua tímida, envergonhada, escondida atrás de uma benevolente montanha. Uma montanha que parecia dizer assim: “Vai, vai amiga lua...dança...baila.” Como uma mãe que incentiva o filho a ir pra vida, mesmo que para ser errado. Vai ser, diz a mãe. Havia uma ligação entre todos ali, e não sairia de mão nenhuma, um soco que fosse. Estávamos cobertos de gestos gentis, era a música que ouvia.

Diria que era arte. Diria que a arte faz a vida... vida. Mas arte é tanta coisa junta. Tem tanto dinheiro, tanta falsidade e mentira, e tanto querer aparecer que não gosto dessa palavra. E há muito rebuscamento, muito mármore, muita higiene. A poesia não. A poesia é sempre um delírio de amor. E o delírio é sempre sujo. O poeta não é aquele que faz poesia, mas aquele que delira e depois faz delirar. E ali, naqueles acordes buscados com tanto zelo, havia um sujeito, um trabalhador, o segurança, este que pela força da profissão, fica de costas para o palco a observar se o público comporta-se bem. Esse segurança, sentindo a poesia, sacou sua máquina fotográfica que fala, e tirou uma foto da lua despontando atrás da montanha. Um rapaz gordo e barbudo cantava algo estranho, fora da música, do tom, enquanto um amigo seu, feio, bailava com uma moça que segurava um vinho barato, levantando-a, girando-a, com tanto amor.

Eu ficava sentindo. A música era tão linda, e havia tanto espaço ali pra gente ser a gente, que tinha gente que não queria saber de música, pois além havia a grama, o vinho, o chá e a pipoca, e mulheres e homens com frio. Era uma música consciente tanto da sua beleza quanto da sua humildade. Eu achei lindo essa mistura. Há muito tempo não sentia a beleza se apossar de mim. Se apossar e me despojar de preocupações mesquinhas. A cerveja, passa, nesses instantes, por purificação e se santifica. A vista, se fortalece e acha aquilo que se quer ver.

Que a poesia nos visite todos os dias. Que entre um numero, e outro, que entre um ônibus e uma porta existam olhos. Que entre um suspiro e outro salte um momento. Que entre um nascer do sol e o pôr, haja um lá, a música e o lugar. Que no inverno, as coisas sejam simples e um corpo se encontre com outro corpo. Que façamos das nossas aspirações mais banais, nossas orações mais densas. Que deixemos as palavras correrem com largas margens. Haverá erros, de concordância, de gênero, de madeira, de matéria, mas que não aconteçam os erros de vontade, de passo. Que o passo seja dado.

Friday, June 01, 2007

FALA DELORES,

Rafael Prosdocimi

Delores não perdoa mesmo...Aí deve ter uns 20 quilos de bosta, pensava Clóvis. Com uma grande pá, o encarregado dos animais, no circo “Los Irmanos”, catava os dejetos fecais da elefanta Delores. Clóvis não era exatamente inteligente, de fato era um dos sujeitos mais burros que o trapezista Rodolfo, que também não era dos mais espertos, conhecia. Sua maior qualidade era o carinho dispensado aos animais. Um mágico que passara no circo nos idos de 90, hoje aposentado, dizia que Clóvis tinha essa amabilidade com os animais por estar mais perto deles do que dos humanos. Talvez fosse exagero.

Ele, Clóvis, nascera no circo. Era filho de acrobatas mortos de maneira trágica. Ironia à parte, os trapezistas morreram quando o picadeiro caiu sobre suas cabeças. Restou Clóvis que, apesar de toda a tragédia familiar, nunca desistiu do circo. Persistia incansavelmente tentando encontrar seu dom perdido entre malabares e galhofas, sem sucesso. Por fim pensara levar jeito com os pratos. Achara que era um exímio lavador de pratos, mas de fato não era. Logo descobriu seu dom, no grande apreço que tinha pelos animais, e foi assim que ficou responsável pelo cuidado dos bichos do circo. Mas ele se sentia tão bem com os animais, que não satisfeito em dar-lhes de comer, desembestava a conversar muitas e muitas horas com os mesmos. Foi aí que, um dia, um dos donos do circo, seu Valente, pediu a Clóvis que parasse com aquilo, pois ele parecia biruta, foi o que disse na época. Depois disso Clóvis nunca mais dirigiu uma única palavra aos animais.

Pois no fatídico dia, enquanto retirava os tais 20 quilos de bosta da jaula de Delores, Clóvis ouviu a seguinte frase:

-Depois que terminar isso, troque a água por favor, ela está suja...

-Mas quem disse isso! Mais no pulo que na palavra- resmungou Clóvis.

-Ora, quem mais está aqui alem de nós dois. Sou eu mesma...A Delores quem fala...

-Mas, num pode não... bicho não fala não.

-Isso é o que você acha né...É verdade que quase fico muda, de tanto que não pratico. Se você tivesse me ensinado antes eu já falaria há muito tempo. Mas não, você não fez nada...Ficava o dia inteiro aí calado, é mesmo um ignorante.

-Não vou tolerar esse tipo de agressão, ainda mais levando em conta que meu tio é ventríloquo, quer dizer, era. Se ele ensinava boneco a falar imagina que maravilha não faria com uma elefanta. Então não venha com crueza, porque eu bem sei que tentei te ensinar a falar, mas fui proibido de continuar. Também me faltava a brilhanteza de titio, é bem verdade. Mas que eu tentei, eu tentei. Deixa as ignoranças pra lá Delores, e...

-Tentou, mas tentou pouco né, seu preguiçoso. Você me deixou aqui nessa solidão a mascar essas folhas secas, a tomar essa água suja...

-Olha, me desculpa aí, mas também não precisa esculachar...

-Não, agora é tarde. Nunca mais falarei com você ou com mais ninguém. Essa foi a primeira e última vez. Você me desapontou muito. Adeus.

O palhaço Perereca, que fazia hora extra, saiu por detrás da jaula a rir longamente. Clóvis chorava. Ainda gritou por Delores, implorou por sua palavra, tentou se explicar, mas o silêncio dela enchia seu coração de angustia. Em casa, Clóvis tentou se matar. Não conseguiu. E no amanhã restaria uma segunda feira.

Wednesday, March 28, 2007

NOSSA BREVE, FRÁGIL, CONTINGENTE E TÃO GRANDE VIDA

Esse poema perseguiu meus olhos e ouvidos.
Meu padrasto (que era sim lindo, apesar dessa palavra tão feia)
dizia esses versos com propriedade e lágrimas verdadeiras.
Meus olhos acharam esses versos numa aula enfadonha e claustrofóbica
nos idos de 98.
Mostrei a uma menina que imaginava que ela também achava

aquelas aulas (e porque não aquela vida) enfadonha e claustrofóbica. Ela gostou.

Cântico negro
José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Saturday, March 24, 2007

NOTAS DO INTERIOR I

Psicologia deve entender a cabeça das pessoas? Não sei. Acho que o importante são as formas de fluidez verbal. Algumas palavras são diques. Represam e interrompem o caminho, barram o transcorrer, as representações, conexões. “Anarquia”, “comunismo”, “violência”, “ateísmo”. Às vezes só sobra trovão e barulho, de idéia não fica nada. Hoje, aqui em Morada Nova de Minas, percebi que talvez seja preciso agir como espião. Eliminar palavras diques do caminho que liga a utopia sonhada à realidade miserável por mais imaginária que seja, mas dolorosamente vivida. Pensamento x Acomodação; Liberdade e igualdade x competição e o último que se foda. O problema é na transição, na transposição. Quando se comunicar, buscar entender pessoas e idéias diferentes, e fazendo isso escapar das palavras diques, por mais que elas encurtariam trajetos; problema é continuar sabendo de que lado se é, não se perder e acabar se formando nas concessões, na evitação dessas palavras diques. Tenho muito medo, dos discursos oficiais, do “politicamente correto”. Procede-se de maneira a afastar o fenômeno, como se pudesse manter a tal essência inalterada.

:..:..

Se agarrar as coisas que flutuam no mar de merda do lado de lá, mas se saber do lado de cá. Do lado de lá, no campo inimigo, chegar com o corpo de merda, ir no ventilador no país das utopias alegres, dos que vivem sem angustia e que pisam na merda, mas simplesmente se acomodaram nessa situação de classe fácil e privilegiada, apesar de também serem contra esses porcos capitalistas. Não às utopias alegres, não aos sem angustia, nada de vida leve.

Tuesday, March 13, 2007

Memórias de Minhas Putas Tristes

“Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era prêmio merecidos de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para oculta a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligencia; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cólera reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco. (...) O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança.” P. 74-79

Saturday, March 03, 2007

Retomar obsessões perdidas no desanimo

Demorar 17 minutos para passar manteiga no pão

Não negar uma companhia para bar

E assim respeitar mais os bares.

Wednesday, February 28, 2007

Bocejos

Sinto um aperto na garganta que impede as palavras e o ar de seguirem, cada um, sua respectiva direção.

Sei não de onde isso vem. Cheiro... tem de vida mesmo. Decisão.

Sabe pênalti, pois é tem que ir lá bater. Sentir confiança, pedir a bola e colocá-la no seu devido lugar. Há uma relação forte entre futebol e vida. O meu futebol e a minha vida. São as mesmas angustias. Desde aquela dia, depois de um jogo, quando estava na sexta série, na qual sabia eu que jogava mais do que o que havia demonstrado.

Foi o primeiro aroma de mediocridade.

Saio agora para a pelada com os amigos. Vou à vida.

Wednesday, February 14, 2007

HISTÓRIA DESPEDAÇADA

Jacques Rancière

Entre o bem e o mal, sabemos que Deus não é neutro." Foi nesses termos que George W. Bush anunciou sua confiança na guerra lançada pelos EUA contra o terrorismo. Evidentemente o argumento suscita alguns problemas, dos quais o primeiro poderia ser expresso em termos simples: o fato é que, justamente nessa história, Deus parece estar-se a mostrar estranhamente neutro. É o mesmo Deus - o de Moisés/Moussa e de Abraão/Ibrahim- que justifica a convicção inversa: a de que os combatentes da jihad farão triunfar a causa do bem contra o "império do mal" americano.

É em linguagem moral e religiosa que se afirma cada uma dessas causas. E é ainda nessa linguagem que, basicamente, expressaram-se aqueles que se opõem à cruzada anunciada pelo presidente dos EUA: "God", "Love", "Peace" e "No more hate" era o que se lia em toda parte nos cartazes carregados pelas pessoas que se reuniram na Union Square ou na Washington Square para opor a preocupação de um Deus do amor à fúria do Deus da vingança: "Que não nos transformemos no mal que deploramos". Como se aceitasse-mos que é apenas nesses termos religiosos e morais que se pode exprimir distância com relação ao grande consenso da nação unida em torno de suas vítimas e sua vingança.
Mas não é apenas uma questão de respeito e de solidariedade com as vítimas. Tudo acontece, em nível mais radical, como se as palavras que eram ditas 30 anos atrás -mundo livre, imperialismo, opressão, resistência - não se aplicassem mais, como se nenhuma outra linguagem, nenhum outro contexto de pensamento, existisse para expressar e avaliar a situação actual.
Que isso aconteça neste início do terceiro milénio, no centro do mundo desenvolvido, evidentemente obriga-nos a uma reflexão. Faz muito tempo, com certeza, que os profetas anunciavam o fim da política e da história. Mas, justamente, o fim que estamos vendo lembra muito pouco aquele que nos anunciavam. O "fim da história" declarado por Francis Fukuyama e, pouco depois, confirmado pela queda do império soviético era o fim do mundo dividido em blocos opostos pela alternativa socialista. O fim das utopias, outro grande tema dos anos de 1980, era o próprio fim da divisão entre os ideais de justiça e a gestão empírica das necessidades. A democracia impunha-se como o governo último, o governo racional que fazia coincidir as exigências da justiça e as da necessidade económica.
Onde a utopia havia dividido, o retorno aos dados compartilhados de uma realidade restritiva parecia prometer, em prazo maior ou menor, o acordo no interior das nações e entre elas. É verdade que ouviam-se vozes dissonantes penetrando na música consensual dos cientistas políticos oficiais. Elas opunham-se a esse realismo demasiado simples - o advento de um mundo virtual e da media - em que toda realidade desfazia-se em imagens, e toda imagem, em números. Uns saudavam o reinado da comunicação, que iria destruir as fortalezas económicas e do Estado e, por meio da miscigenação generalizada, instaurar a grande democracia planetária da rede. Outros, dependendo do caso, denunciavam a ampliação ao infinito da sociedade do controle, o colapso do real e o totalitarismo "soft" do ecrã total -ou, ainda, o triunfo fatal do indivíduo narcisista na democracia de massas.
Mas essas aparentes dissidências baseavam-se, na realidade, na mesma crença essencial. Ingénuos e astutos, optimistas e pessimistas, todos, no fundo, compartilhavam a mesma ideia -justamente aquela que foi tanto criticada no defunto comunismo -, a de que a história tem um sentido único, no qual a técnica, a economia e a política avançam juntas e a circulação mundial de homens e mercadorias significa que as particularidades estão fadadas a desaparecer, enquanto o desenvolvimento de novas tecnologias significa o fim das ideologias antigas.
Os conflitos étnicos do Leste Europeu, a ascensão do fundamentalismo no mundo muçulmano e os avanços de uma extrema direita racista e xenófoba em vários países ocidentais aparentemente não bastaram para abalar essa crença na concordância dos tempos. Será que a queda das torres gémeas o conseguirá, hoje?
Àqueles que já nos viam a viver futuramente no puro universo virtual das redes, àqueles que diziam que o horror vivido nesse dia já tinha sido previsto pelos filmes de catástrofe, o dia 11 de Setembro fez lembrar, em primeiro lugar, que ainda vivemos e trabalhamos em edifícios de ferro, pedra e vidro, cuja resistência e cujo desgaste nada têm a ver com os ecrãs ou os efeitos especiais, e que, quando desabam, desabam de facto.
Mostrou, sobretudo, que a maior arma a favor da destruição real é essa "ideologia" que o mundo actual e o império da comunicação tecnológica pensavam ter relegado ao reino das recordações. Por trás da pergunta falsamente ingénua "por que é que eles nos odeiam?" oculta-se uma perplexidade mais sincera: "Por que eles não são razoáveis, como nós?".
Por que as coisas não obedecem a essa razão simples que quer que, quando os equipamentos se multiplicam, as pessoas vivam melhor, e, quando elas vivam melhor, se tornem mais pacíficas? Gostaríamos muito de acreditar que os atentados são obra de pessoas que ainda não têm acesso a equipamentos e ao bem-estar. Mas como compreender que seja possível ser ao mesmo tempo chefe de uma rede financeira internacional e guerreiro de Deus, fanático suicida e organizador e executante minucioso? Que se possa avançar rumo à morte certa quando não se é um miserável que não tem mais nada a perder, mas um homem normal, que concluiu seus estudos e poderia ter uma bela carreira de engenheiro?
Assim a derrota actual da política em nome da moral e da religião não guarda relação com o cenário de fim da história que se vê por toda parte nos últimos 20 anos. Não se identifica com o reinado planetário da gestão razoável que, pouco a pouco, se ergue sobre as ruínas da utopia. Pelo contrário - ela marca não apenas a refutação desse cenário "razoável" mas também a negação da concepção linear de evolução histórica que o sustenta. A política não acabou. Apenas se ausentou.
Ela foi excluída, por princípio, pelos Estados ou grupos autoritários que declaram, sem rodeios, que não precisam dela, porque a palavra de Deus ou outro princípio de identidade qualquer é o verdadeiro alicerce da vida em comunidade. Ela é esvaziada de dentro para fora pelos Estados liberais que, cada vez mais, tendem a trazer a forma democrática de volta à gestão supostamente unívoca dos interesses económicos comuns.
O que fica mais claro do que nunca, hoje, é que a política não é um dado permanente e identificável na organização das comunidades de Estado. Ela é uma maneira de conduzir conflitos e de fazer disso o próprio centro da vida comunitária. Essa maneira nem sempre foi exercida. Mas todo Estado, bom ou mau, tende a reduzir a política, por meios violentos ou brandos, em nome de um princípio de comunidade não equívoca, não conflituante: a identidade da fé ou da origem, mas, também, a lei, o interesse comum ou as restrições impostas pelas circunstâncias.
O que também fica aparente quando a política apaga-se é que ela é, antes de mais nada, uma maneira de dotar os acontecimentos de nome e de contexto, uma maneira de compreender as diferenças das temporalidades num mesmo presente, de situar o mesmo e o outro numa espécie comum. Algumas nações não vêem necessidade disso, encontrando nas escrituras sagradas, na lei do sangue ou da terra meios de atender a essas necessidades. Outras, que a percepção política ajudou a formar em grau maior do que elas mesmas dão-se conta, vêem-se desarmadas agora.
É o que estamos a observar hoje nos EUA e entre seus aliados. O recurso às referências seguras da moral e da religião traduz a impossibilidade de dar nome ao conflito, de situar o inimigo num espaço comum, de pensar o tempo comum às convicções ancestrais que o animam e às tecnologias novas que ele manipula, para traduzi-los em actos. É uma incapacidade compartilhada pelos dirigentes americanos, que não sabem que nome atribuir à sua guerra, e aos opositores, que não sabem como defender sua discordância a essa guerra.
Alguns sectores poderiam afirmar que trata-se de uma guerra de palavras, apenas, e que isso não impede o jogo das grandes potências. Mas a própria oposição entre palavras e actos está a ser questionada. A potência americana sofre dificuldades que não se limitam à falta de adaptação de seus meios militares à geografia do Afeganistão mas também à própria natureza dessa potencia.
A hegemonia americana é, em primeiro lugar, aquela que os Estados Unidos exercem sobre seus aliados em nome da lógica consensual dos interesses comuns e das realidades restritivas. A mesma lógica que submete os Estados aliados é aquela em nome da qual eles asseguram seu poder.
Para quem aceita as regras do jogo, essa lógica não admite réplicas. Mas ela se esvazia diante daquele que a rejeita em bloco. Surge no próprio coração da superpotência uma impotência que é muito diferente da tradicionalmente comentada dificuldade de conciliar a vida democrática interna com a luta mortal contra um inimigo disposto a tudo. As mesmas razões que desarmam a contestação nos Estados ocidentais e dão carta branca a seus governantes podem dificultar não apenas a tarefa de dar nome ao inimigo e à guerra mas também a de chegar ao fim dela.

Publicado originalmente na Folha de São Paulo a 11/11/2001

Tuesday, January 30, 2007

Ai o Chicote nosso de cada dia...

Lendo isso pensei quais seriam os chicotes, os guerreiros e os escravos de nossos dias...

“A política existe quando a ordem natural da dominação é interrompida pela instituição de uma parcela dos sem-parcela. Essa instituição é o todo da política enquanto forma especifica do vínculo. Ela define o comum da comunidade como uma comunidade política, quer dizer, dividida, baseada num dano que escapa à aritmética das trocas e das reparações. Fora dessa instituição, não há política. Há apenas ordem da dominação ou desordem da revolta.

É essa pura alternativa que um relato de Heródoto em forma de apólogo nos apresenta. Esse relato-apólogo exemplar é dedicado à revolta dos escravos dos citas. Os citas, diz ele, têm o hábito de vazar os olhos daqueles a quem escravizam, para melhor sumbmetê-los à sua tarefa servil, que é ordenhar o gado. Essa ordem normal das coisas viu-se perturbada por suas grandes expedições. Para conquistar o país dos medos, os guerreiros citas embrenharam-se na Ásia e lá ficaram retidos o prazo de uma geração. Enquanto isso, nascera uma geração de filhos de escravos, que cresceu com os olhos abertos. De seu olhar para o mundo, havia concluído que não tinham razões particulares para ser escravos, já que haviam nascido da mesma maneira que seus senhores distantes e com os mesmos atributos. Confirmados, pelas mulheres que ficaram em casa , nessa identidade de natureza , eles decidiram que, até prova em contrário, eram iguais aos guerreiros. Em conseqüência, cercaram o território com um grande fosso e armaram-se para esperar de pé firme a volta dos consquistadores. Quando estes retornaram , pensaram que facilmente esmagariam com suas lanças e arcos , essa revolta de vaqueiros. Mas o ataque foi um fracasso. Foi então que um guerreiro de bom conselho avaliou a situação e assim expôs a seus irmãos de armas:

“Sugiro que deixemos aqui nossas lanças e nossos arcos e que os enfrentemos empunhando os chicotes com que fustigamos nossos cavalos. Até agora, eles viam-nos com armas e imaginavam que eram nossos iguais e de igual berço. Mas quando nos virem com chicotes em vez de armas, saberão que são nossos escravos e, compreendendo isso, cederão”.

Assim foi feito, e com êxito: surpreendidos por esse espetáculo, os escravos fugiram sem lutar.”

(Jaques Rancière “O Desentendimento” p. 26-7)

Monday, January 15, 2007

Cachorros e Cachorras

Eu queria chegar na praça com meu cachorro e não ter que viver o Brasil até mesmo no latido de uma cadela. Realmente gostaria de por algum momento tornar-me o “sueco em trânsito” braguiano.

Ontem à noite fui passear com as duas poodles de minha mãe numa praça perto de casa. Depois de um tempo, quando já pensava em voltar de novo para casa, aproximou-se de “nós” uma jovem mãe armada de filho pequeno e babá. A mãe era dessas que a gente diz que até há algumas mais bonitas no mundo, não muitas, mas há. Ela se aproximou dizendo que seu filho gostava de cachorro. Perguntou se as cadelas mordiam e aquele papo chato de praça e cachorro, quantos anos, nome e blablá, mais repetitivo que mascada em boate. Então a moça logo colocou seu filho sentado no chão para brincar com as “minhas meninas”. Foi aí que chegou um cãozinho vira-lata, simpático na sua timidez pretensa e malandragem. Os vira-latas são exemplos perfeitos de condicionamento. Mas não apenas eles como veremos mais à frente. Esses cães chegam pisando macio e, frente a qualquer movimento brusco de um ser humano próximo, dão logo uma carreira e somem de vista. Esse mesmo cãozinho já tinha fugido de mim algumas vezes, quando se aventurou noutro canto da praça a cantar minhas meninas, como se elas fossem umas quaisquer. Ele corria, mas sempre voltava, fingindo que não era com ele, só faltando mesmo olhar pra cima e assoviar.

Estávamos eu, a Luna, a Panqueca Brewster (vulgo Punk), o garotinho e sua mãe, a babá, quando o cãozinho foi se aproximando no seu passo cuidadoso, quando, subitamente a cadela da mãe do menino virou e grunhiu: “Sai cachorro...ai, sai seu cachorro favelado!!!!”.

Bom, posso dizer, com uma sinceridade que processo pouco no meu dia-a-dia, que senti um profundo asco por aquela mulher, e que fosse um rato gigante na minha frente, não produziria esse sentimento tão arcaico e inominável. Bastasse ser obrigado a ler nos jornais que “um menor foi preso quando assaltava um adolescente”...ou que no Brasil “o povo é contra a opinião pública”...agora tenho que ouvir uma mulher brincando com um bando de cachorros e que de repente vira e fala para um terceiro (também cachorro) “sai cachorro”. É muita sociologia para uma passeada noturna com cachorros. Agora há cachorros e cachorros. Os segundo são os favelados. E são completamente diferentes. Uns fazem amor, outros trepam como animais. Uns se alimentam de forma balanceada outros comem qualquer porcarias. Uns pedem alguma coisa, os outros latem. Uns são quase gente e o os outros são animais imundos. E será que estamos a falar de cachorros?

A cadela, digo a mulher, agora vai dedicar sua vida inteira a condicionar seu filho a ser um garoto medíocre de zona sul. Capaz, no entanto, de aprender direitinho o “politicamento correto” e se dar bem na vida. Como diria o Zappa, temos que ter muito cuidado ao deixar nossos filhos com as famílias. Elas são muito perigosas.

Thursday, December 28, 2006

ARGUMENTO

A discussão entre o que diferencia “ciência de verdade”, mito, religião, pseudociência, ciências humanas, e o escambau, sempre me interessou profundamente. Ao longo de minha vida esse interesse ressurge e é declinado por razões, motivos e interesses diversos. Isso desde quando ainda sonhava em ser um físico charmoso de óculos, descobridor dos segredos finais do universo (assim como das mulheres). Lia Sagan convencido de que nunca haveria um dragão invisível, a-térmico e imaterial na minha garagem. E convencia-me de que saber da inexistência inexorável do tal dragão era importante e me protegia da farsa e da enganação. Havia o mito e a religião a serem combatidas. E a briga era essa. Ou se explicava o mundo de forma mítica ou de forma cientifica. Eu achava fantástico isso tudo e interessava-me por todos esses grandes divulgadores da ciência.

Na física não fui nem mesmo um sopro. A mudança pensada, ainda em tempo de colégio, para a psicologia procedeu-se em apenas 6 meses. Havia tanto fetiche em querer ser físico que sobrava pouco interesse em debruçar a vida inteira sobre dados insossos, vazios, elementares, buscando explicação da natureza das coisas. No meu narcisismo (palavra que aprenderia mais tarde) não conseguia me ver como um encadeamento de coisas que aconteceriam mesmo se eu não existisse. Havia um idealismo além da “minha” conta em achar que EU contribuiria para o progresso da ciência. Meu egoísmo, particularismo, imediatismo e holismo me impediram de seguir esse caminho; assim como minha preguiça mental, minha burrice, meu desânimo. Desistindo de estudar átomos, resolvi tornar-me um. Sem nem mesmo saber o que fazia entrei para o curso de psicologia, e de lá para a pesquisa social foi um pulo. O interesse cientifico na organização da sociedade aconteceu sem nem mesmo saber o que fazia. Uma paixão mesmo talvez. Portanto, desde o inicio do meu curso me dedico ao estudo de processos psicossociais, e me inscrevo dentre daqueles que trabalham com ciências humanas. Nunca fiz análise ou terapia, nem nunca trabalhei com isso. Leio Cyro dos Anjos e Rubem Braga convivendo e sofrendo com meus porões e suas coisas pobres e sujas. Minhas mentiras guardadas e a covardia dos gestos amarelados em lembranças.

Mas agora a ponta que retorna da eterna discussão é a relação entre as ciências humanas e as ciências naturais. Continuo debatendo isso principalmente com o Chico, com a feliz interlocução de um ou outro (Gabriela, Rodrigo, Thiago). E quando disse para umas amigas psicanalistas, que andava discutindo essas coisas com meus amigos “cientistas de verdade”, elas ainda me fizeram troça e perguntaram o que eu ainda queria com essa discussão, deixando claro que seria essa uma questão sem fim e sem ponto de discussão. Bom, elas não disseram nessas palavras, mas creio que era isso que queriam dizer. E aí parei para pensar no porquê de todo esse barulho. Afinal está tudo certo. Os cientistas naturais pensam que a gente faz filosofia, má literatura ou somos uns revolucionários frustrados; e nós pensamos que eles são uns alienados, escravos da linha de produção taylorista-fordista do pensamento, ou ainda que cansados de matar Deus (que já perdeu toda a graça) resolveram também matar o sujeito, o ser humano e proclamar a cegueira do relojoeiro, da máquina da vida ou da dança do universo, e porque não também da sociedade. A sociedade com leis naturais não dependeria nem de psicólogos ou sociólogos e sim de físicos, biólogos e matemáticos. Não concordo com nada disso. E pensando, portanto, no porquê de toda essa discussão, cheguei à conclusão que eu me embrenhava nessa briga menos para provar porque as ciências sociais são indispensáveis e fundamentais para o conhecimento humano, e mais para compreender melhor meu objeto de estudo. Também para combater a leva de cientistas naturais que cansados de suas perspectivas atomísticas e minimalistas se colocam a transpor de um nível do conhecimento para o outro em salto, sem pensar nas mediações e interações que diferenciam sociedade de individuo. Como alguns físicos que querem demonstrar a indissociável ligação entre as “novas” descobertas da mecânica quântica às questões da existência e experiência humana, assim como os psicólogos evolucionistas que querem explicar porque o homem “pula a cerca” unicamente devido ao maior ou menor investimento parental; ou mesmo quando Sr. Dawkins procura mostrar que as idéias pulam de cabeça em cabeça da mesma forma que os genes se propagam na natureza. Todas essas teorias toscamente esboçadas aqui, partem do principio de que descobertas num nível elementar, subatômico ou biológico se aplicam 1 a 1 ao ser humano e à sociedade. Como se as respostas as perguntas da sociedade fossem essas que eles querem nos dar. Nós queremos menos descobrir se há ou não um gene da homossexualidade e mais porque investimos tanto dinheiro e tempo em descobrir um gene da homossexualidade. Pensamos que a saúde da sociedade depende mais de nos havermos com o preconceito e a discriminação, do que com a determinação da homossexualidade. Que haja uma determinação genética é algo que não negamos ou rechaçamos como explicação causal. Compreendemos dentro de um feixe de considerações. Mas não é essa a pergunta que fazemos. Perguntamos porque o homossexual incomoda tanto a sociedade, os valores, a “ética”.

Penso que é porque o objeto de estudo das ciências humanas não se encontra, para os “cientistas de verdade”, claramente demonstrado que eles persistem na posição de considerar que há um substrato natural (no sentido de estrutura) que determinar formas de ser, e que a cultura (ou a sociedade) entra como algo de menor valor nessa equação. Fieis aos princípios da universalidade e da homogeneidade, resolvem o problema do particular, não como um problema, mas como uma exceção extirpada, ou como uma questão de resíduo estatístico.

Então o melhor motivo que tenho para continuar nessa discussão por mais que ela me canse por vezes, é a possibilidade de repensar, reconstruir o nosso objeto de estudo e demonstrá-lo de maneira mais clara. E no nosso caminho, sobressaltam diversos adversários. Não mais aqueles que se dividem em “cientistas” e “religiosos”. O que carece demonstrar é que o que estudamos (o fenômeno social) possui características que não podem ser reduzidos a elementos físico-quimico-biológicos. E é claro que nem míticos ou religiosos. Essa demonstração não deve, por outro lado, ter um caráter exclusivista e “corporativo” de que não há influência de elementos biológicos, físicos ou químicos. Uma mulher bonita continua sendo preterida (em maior parte dos lugares) a uma feia (por mais que pense que isso seja construído socialmente), e as drogas continuam a afetar o nosso corpo e seus receptores neuroquímicos.

O que reforçamos é o caráter de reflexividade e interação que constituem o ser humano, e que esse processo (interação e reflexividade) criam forma de determinação não previstas anteriormente ao próprio processo. Não previstas nem pela fisiologia, nem pela química, nem pela física. Nesse sentido as ciências humanas e sociais não podem prescindir do sentido (significado), nem da história tal qual as outras ciências fazem. Excluir o sentido da compreensão da sociedade é buscar compreender a sociedade como abstração. É ainda concluir que a sociedade é nada mais do que a soma das partes. Que compreendendo a parte se compreende o todo. Que a parte é constituída de maneira homogênea, dependendo portanto de uma constituição natural. O ser humano é natural, a sociedade é feita de seres naturais, logo a sociedade pode ser compreendida entendendo a natureza dos seres vivos. Essa resposta resolve algumas pedras no sapato no caminho do cientificismo: o antropocentrismo, o particularismo, a história, a contingência. É por isso que todos os dias rezo e agradeço a existência da antropologia. Haverá sempre uma tribo numa ilha de nome impronunciável no Pacifico a mudar nossa perspectiva.

Um átomo não representa o mundo. Uma criança sim, de que forma hoje e há 100 anos atrás cabe pesquisar e conhecer. Se a televisão mudou a linguagem das pessoas, a forma como elas interagem (ou então a Internet) não há como estabelecer apriori, sem se levar em conta como as pessoas reais reagiram à televisão ou a Internet. E obviamente vão se misturar, aos pesquisadores que querem de fato compreender como a Internet influenciou a linguagem das pessoas, outros pesquisadores que querem demonstrar como a Internet empobreceu a linguagem, e outros, bancados pelo GOOGLE, que querem deixar claro como a Internet facilitou o intercambio cultural e aumentou a solidariedade entre as pessoas. E o desafio que os “cientistas de verdade” nos fazem, nos leva a necessidade de demonstrar, por exemplo, nesse caso o que é ciência social e o que não é. O que é marketing e o que é ação política. Isso é uma das coisas que me fazem continuar a interessar por essa discussão. Precisamos compreender melhor nosso próprio objeto de pesquisa e suas relações com outros sistemas de ação humanos, arte, política, cultura, ciência. Mas não podemos como eles fazem simplesmente dizer, “olha isso aqui é ciência e ponto final, não tem nada de social não”. Não é possível, pois estamos emaranhados a sociedade e à política. E a pior forma de fazer ciência social é dizer que essa relação não existe. Não andamos nem mexemos com fatos ou coisas. A ciência social ao dizer e buscar compreender relações sociais cavalga pelo duplo caminho da ciência (no sentido de ampliação do conhecimentos) e da política (no sentido de interferir nas relações sociais).

Nesse sentido discutir com os “cientistas de verdade” continua ajudando. Eles têm a clareza do que estudam e dos processos que realizam. Afinal, as coisas continuam mais distinguíveis num laboratório. Eles não se preocupam em cada movimento, em cada instante, das conseqüências sociais e políticas dos seus atos. Eles podem blindar sua alienação com o ideal da ciência. Da busca da verdade. E a nossa alienação (dos cientistas humanos) é parte da nossa ciência. Quando vamos estudar os “pobres, feios e sujos”, carregamos nosso olhar e é ele primeiro que temos que compreender e analisar. Imaginem um físico pensando se estaria sendo preconceituoso em lidar com aquele glúon? Ou se a ação do fóton estaria sendo alterada pela minha roupa?

Nós, das ciências humanas, somos meros átomos, estudando átomos. E é isso que nos interessa, como os átomos interagem. O que determina ou não a ação de um átomo. Só que os átomos pensam, interagem e refletem. Não somos deuses olhando formigas. Somos formigas compreendendo a vida de formigas.