Wednesday, February 22, 2006

COMO "VINICIUS DE MORAES" SALVOU MINHA VIDA...

Aquele, sem dúvida, fora uma “dia bão”. O maior show de todos os tempos. A praia, a areia, o mar, o céu , a carioca...Toda essa mitologia, todos esses arquétipos juntos, e ainda Ron Wood, Charlie Watts, Keith Richards e Mick Jagger. Tudo isso proporcionou um clima único de celebração da vida. A vodka, odiosa vodka e a bem amada cerveja tiveram também a sua parte na história. Estive bêbado e não me lembro de muita coisa, principalmente do meio pra frente. Na verdade não lembro de nada, do meio do show pra frente. Quando me perguntam sobre a música tal, ou daquela hora que aconteceu aquilo, eu digo sempre que não sou vídeo-cassete e se quiserem saber do show que comprem o DVD, pois é o que farei. Mas lembro com sobra de detalhes do cheiro do dia. O sorriso das pessoas e essas coisas que só acontecem nessa cidade insana e mágica que é o Rio de Janeiro. Uma cidade que desloca um milhão e duzentas mil pessoas para a praia, e fica até parecendo que isso não é nada demais. Lembro apenas dessas coisas que não virão no DVD. Uma comunhão mesmo. Dizia a um amigo que aquilo ali parecia Meca ou algo similar. E foi isso: uma grande missa. Com seus um milhão e duzentos mil devotos. Sentia-me totalmente integrado à paisagem, com suas putas, seus miseráveis, seus turistas escandinavos, suas morenas e louras de carne firme, suas bichas internacionais, sua pobreza escancarada, sua exuberância geográfica.
Completamente entorpecido pelo abuso de álcool acabei não recordando e não gravando nenhuma imagem no arquivo de minha memória. Deveria ter fotografado qualquer coisa que fosse com minha retina, mas não o fiz. Estava lá menos pelo show, até porque estava a uma distância de alguns campos de futebol do palco, e via Mick Jagger como as pessoas dizem ver Deus. Na base da fé.
Tento compreender se aquilo que me acontece quando avanço a linha da sobriedade, isso que não é registrado na minha memória, se isso entra na minha vida como aquilo que sou, ou então se isso tudo não conta na minha vida, e aí posso dizer que eram as danadas das moléculas de álcool que roubavam meu juízo. Lembro com clareza do início do show, e depois não lembro de absolutamente nada. Sei que em determinado momento tentava voltar pra casa e andava. Andava procurando o caminho de casa, o caminho que é o meu da forma menos alegórica e metafórica possível. Realmente andava. Os pés doíam, e todos os caminhos eram iguais e se repetiam incessantemente. O mesmo banco, a mesma esquina dobrada. Algo me escapava e eu não conseguia achar o caminho.
Andava já há muito tempo, subia morros e descia, andava em círculos, e nada nada familiar, nada indicava uma direção. Perdido em terra estranha, terra essa que se assustou Paulo Mendes Campos na década de 60, me assustou ainda mais. Muita volúpia para toda essa minha mineirice. Caminhava em círculos e fadado a andar, seguia meu destino. E de repente eu o vi. “Vinicius de Moraes”, a placa, a rua. A rua que sabia ser perto do lugar onde estava hospedado. Pela “Vinicius de Moraes” fui pra casa. Antes disso, em algum ponto da história, perdi as minhas sandálias. Ou fui roubado. E a história se repetia.

Friday, February 17, 2006

INVEJA SINCERIOSA

Tenho uma inveja silenciosa dessas pessoas que vem do interior para estudar, ou mesmo viver, na cidade grande. Carregam nos olhos uma vontade grande de conhecer o mundo, que segundo eles, existe. Carregam também esse charme de quem vem de um outro planeta, de quem tem um lugar com nome no coração. Chegam aqui, na cidade, para explorá-la tal qual Marco Pólo ou algum outros desses famosos exploradores sobre os quais nunca li. Rompido o laço, que nos prende junto à saia da mãe, rompe-se qualquer fronteira. E eles avançam, impiedosos, e comendo pela beiradas.
Tenho inveja desse interesse que eles demonstram para com nossos vícios e hábitos e que acabarão também adquirindo, mas mantendo essa distância de quem nunca vai se acostumar com a naturalidade de uma buzina. Possuem uma espécie de ingenuidade e ambição, se lançam ao espaço, fora de suas cidades pequenas, e chegando aqui descobrem, sempre, que o lá já não é tão longe. E eu fico aqui, parado, com essa inveja sincera.

Saturday, February 11, 2006

O morro não é dos Malandros

Rubem Braga (1936)
Em qualquer morro do Rio já se ouve, hoje, um ronco, um barulho de tambor surdo, uma voz cantando uma coisa esquisita. Há qualquer coisa lá por cima e não é sem tempo. Eles estão se preparando, estão começando a se preparar. Os exércitos do samba fazem os primeiros exercícios antes de marchar sobre a cidade. Lá vem samba.
É preciso gostar do samba e para gostar do samba é preciso conhecer o samba. Porque a verdade é que muita gente não gosta das mesmas condições. Está visto que há samba e há samba. Do partido alto e do partido baixo. E de muitas variedades. É provar. Não é decente falar em samba sem falar em Noel Rosa. Ele faz sambinha repinicado, desses que se podem cantar com o auxílio de uma caixa de fósforos. Mas faz também o outro samba, o samba alto, o samba para a multidão mestiça chorar, o grande samba.
Para gostar desse grande samba não é preciso achar que ópera é música para boi dormir, como definiu um meu amigo. Um sujeito que gosta de ópera e não gosta de um samba de Cartola, da Estação Primeira do Morro de Mangueira, é um sujeito que não gosta propriamente de ópera, gosta apenas do Teatro Municipal. Não convém esperar que um samba de Cartola chegue a ser conhecido por uma cantora qualquer que o vá ganir pelo microfone de qualquer PR. O melhor é tomar um ônibus Méier, descer ali na rua São Francisco Xavier, atravessar o viaduto e subir o morro. Aí, sim. Um samba é um samba, é qualquer coisa de muito.
Não é só na Mangueira. Em qualquer morro e mesmo em qualquer canto pobre da cidade. Houve um tempo em que só se falava em Favela. Hoje o samba se espalhou. Há um por aí que canta as glórias do morro de São Carlos: "No morro de São Carlos / Tive um trono / As negras me velavam o sono / Numa corte imperial."
E o cantor compara a mulata que fugiu a Maria Antonieta, "fazendo muita falseta," e ele mesmo a um rei Capeto abandonado que acaba infeliz, guilhotinado pela saudade da referida senhora.
Mas se eu citei Cartola é porque nele se encontra um sentimento tão profundo e primitivo que a letra de repente nem quer dizer nada e acaba dizendo coisa como diabo. Ele é talvez melhor que o famoso Paulo da Portela e o samba parece mais puro. Reparem só nessa letra: "Semente de amor eu sei que sou / Desde a nascença / Mas sem ter vida e fulgor / É minha sentença."
Isso na voz de negro, entre o coro das mulatas, é qualquer coisa de fundo, de triste, de uma desgraça preta mesma, preta como o soluço de uma cuíca.
Mas parece que estou estragando o samba, transcrevendo assim um pedacinho sem música, sem a voz, sem os surdos, as cuícas, os tamborins, as mulatas, o morro...
Só indo lá mesmo. E é preciso acabar de uma vez essa história de que morro é terra de malandro. Eu, que já fui várias vezes a vários morros e já morei vários meses em Copacabana, sou capaz de jurar que nos apartamentos da areia há mais malandros que nas casinhas de lata velha lá de cima. A grande maioria da população do morro é de trabalhadores, sujeitos que pegam no duro todo dia, que vivem suando. A malandragem existe mais no samba que na realidade.
O batente é o mais comum. Malandros não teriam, por exemplo, capacidade para organizar uma escola de samba. Para isso é preciso ter o espírito, a disciplina, a força de vontade de um trabalhador. E os morros estão cheios de escolas onde pode haver cachaça, mas há muita alegria, bastante respeito e, às vezes, uma disciplina quase militar. Já esse nome de escola implica uma idéia de hierarquia, de cooperação, de ordem, de método de que um verdadeiro malandro não é absolutamente capaz.
Quando falo que nas escolas de samba há muita alegria, não quero que se confunda alegria com bagunça. Ali não há cerimônia, mas também não há gandaia solta. E de resto ninguém pode esquecer a função quase religiosa que o samba tem no morro. Uma religião sem Deus, mas com sacerdotes, noviças, rito, tristeza, esperança. Mesmo porque não é preciso ser campeão de folclore para sentir como o samba recebeu e ajeitou a fluência de certas orações de macumba.
O cavalheiro que se dispõe a ir a um morro, mesmo com a sua senhora, irmã, noiva, namorada, tia ou bisavó, não necessita levar uma boa metralhadora nem mesmo uma pistola de gás lacrimogêneo. A sua bolsa e a sua mulher não correm tanto perigo. A sua mulher, pelo menos, na sua descida do morro lhe dirá que foi tratada infinitamente com mais respeito do que quando passava pela Avenida, sábado de tarde.
Um amigo meu foi há tempos a um morro. Havia bebido demais e no fim da festa estava naquele estado em que tudo gira e se confunde em torno de nós, e, mais ainda, dentro de nós. Em pleno caos alcoólico, meu amigo deixou de saber o que estava fazendo. Acordou no dia seguinte numa cama ao lado de um mulato de uma mulata que o haviam rebocado até ali por caridade e ainda lhe deram café e dinheiro para o ônibus que o conduziria aos seu luxuoso apartamento de Ipanema.
Vamos, portanto, para o morro ouvir as primeiras cuícas do carnaval do ano que vem. Não precisamos levar armas. Levemos ouvido e coração, para ouvir e para sentir. Não aprenderemos música. Mas sentiremos coisas que são tristes e belas e que é bom sentir. Aprenderemos sentimento.

Friday, February 03, 2006

É rapaz...

As cores do dia desapareciam no cinza do meu coração. Passava e por onde ia tudo apodrecia. Para mim o deserto parecia vivo, o deserto se estendia a frente confortável e alegre. Os cáctus retorcido, as pedras, os bichos rastejantes. Sentia-me no caminho certo, no caminho que precisava seguir, no caminho que eu merecia. Aos pouco achava meu canto nessa casa. E o vento, ah o vento do deserto, soberano, o vento que sussurra ao ouvido: " O tempo não existe".
Era isso que via de meu Cadillac.
A estrada convidando a partir, e quando a estrada nos convida assim, com todo esse apelo, importa pouco o nome dos lugares. Ir pra casa, sempre. Ir pra casa, mesmo quando se foge de lá, como agora. Sempre estamos indo pra casa, disse alguem mais triste que eu. Se chegamos algum dia...sinceramente duvido. Mas haverá desertos, mulheres estúpidas, cervejas quentes, corpos frios, mal cheiro, tédio, relógio parado e gasolina barata e cara. E se atropelar um cachorro no caminho, seguir, e então pensar, sempre, que poderia ter sido uma vaca.

Sunday, January 29, 2006

VOCE SE LEMBRA...

Ela é imprescindível de um jeito assim, que lhe dava medo encontrá-la nas quinas tão reais daquela casa. Sentia-se como um crente que tem que se haver com o próprio Jesus Cristo, numa quarta-feira, as três da tarde, na rua São Paulo número 2914, esquina de Bias Fortes. Ainda mais naquela casa, na frente de todas aquelas pessoas estranhas. Ele, ali, teria de reagir de uma forma aceitável e neutra. Ela não era uma mulher para encontros materiais. O sonho, o devaneio, a abstração sempre foram lugares mais propícios para encontrá-la, e ter aí, o tudo da vida.
A verdade é que ele não sabia que se encontrariam mais uma vez, nessa mesma encarnação. Sendo assim, a presença dela lhe causava transtorno. À distância pequena, ele sofria em pensar que a aproximação, o esbarrão, qualquer coisa, estava ao alcance dos pés dela. E que talvez, mesmo que ele corresse, fugisse pela rua deserta poderia ela ainda observá-lo. Mas o medo real, indefinível, indizível começava mesmo no verbo. E se ela dissesse “boa-noite”... “Você tem fogo”...“Onde é o banheiro”, qualquer dessas coisas tolas, seu coração palpitaria forte, o que a faria perguntar: “que barulho é esse?”. O rapaz diria que era ela, ressonando toda no ritmo de seu corpo. Ela já fazia parte do seu desequilíbrio corporal. A disritmia de suas funções vitais dependia do fator “ela”, tal qual depende da taxa de outras coisas como da noradrenalina, do álcool ou da cocaína. O pesadelo final seria se ela começasse algo assim como “você se lembra...”; Ele, então, preparava um ataque epilético devidamente treinado e ensaiado. Sairia bonito e real, com muita secreção, o barulho angustiante dos dentes se chocando, espasmos pluridirecionais e órbitas vazias. Talvez chamariam uma ambulância. Ela se afastaria, pois não é médica, e o socorro chegaria.

A presença dela cercava de incertezas suas angustias, e elas todas, com medo, ameaçavam sumir. Desistiam de dominar o rapaz. No entanto, a falta da cerveja (e porque não - da coragem) ajudava a angústia a se manifestar como força, na fraqueza desse sujeito tão hábil em ser um piqueno minino. E o leme, pesado, deixava esse minino a contemplar mais que pacífico o Atlântico. Ela então se aproximava dele com seu jeito doce para com as crianças, inclusive para com essa, e demonstrava um interesse que não era nada além de gratuita gentileza.
Ela nunca começaria uma frase “você se lembra...” havia sido ele, pra ela, a máscara...Apenas o nome, do “cara da noite”, que é sempre o mesmo. Ela morreu muito velha, enquanto ele dormia e sonhava com aquilo que ela perguntaria, “você se lembra...”, se ela se lembrasse disso tudo que ele nunca esqueceu.

Tuesday, January 24, 2006

DIVISÃO

Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta)

Você poderá ficar com a poltrona, se quiser. Mande forrar de novo, ajeitar as molas. É claro que sentirei falta. Não dela, mas das tardes em que aqui fiquei sentado, olhando as arvores. Estas sim, eu levaria de bom grado : as árvores, a vista do morro, até a algazarra das crianças lá embaixo, na praça. 0 resto dos moveis — são tão poucos! — podemos dividir de acordo com nossas futuras necessidades.
A vitrola esta, tão velha que o melhor é deixá-la ai mesmo, entregue aos cuidados ou ao desespero do futuro inquilino. Tanto você quanto eu haveremos de ter, mais cedo ou mais tarde, as nossas respectivas vitrolas, mais modernas, dotadas de todos os requisitos técnicos e mais aquilo que faltou ao nosso amor: alta-fidelidade.
Quanto aos discos, obedecerão às nossas preferências. Você fica com as valsas, as canções francesas, um ou outro "chopinzinho", o Mozart e Bing Crosby. Deixe para mim o canto pungente do negro Armstrong, os sambas antigos e estes chorinhos. Aqueles que compartilhavam do nosso gosto comum serão quebrados e jogados no lixo. É justo e honesto.
Os livros são todos seus, salvo um ou outro com dedicatória. Não, não estou querendo ser magnânimo. Pelo contrario: Ainda desta vez penso em mim. Será um prazer voltar a juntá-los, um por um, em tardes de folga, visitando livrarias. Aos poucos irei refazendo toda esta biblioteca, então com um caráter mais pessoal. Fique com os livros todos, portanto. E conseqüentemente com a estante também.
Os quadros também são seus, e mais esses vasinhos de plantas. Levarei comigo o cinzeirinho verde. Ele já era meu muito antes de nos conhecermos. Também os dois chinesinhos de marfim e esta espátula. Veja só o que está escrito nela: 12-1-48. Fique com toda essa quinquilharia acidentalmente juntada. Sempre detestei bibelôs e, mais do que eles, a chamada arte popular, principalmente quando ela se resume nesses bonequinhos de barro. Com exceção,o de pote de melado e moringa de água, nada que foi feito com barro presta. Nem o homem.
Rasgaremos todas as fotografias, todas as cartas, todas as lembranças passíveis de serem destruídas. Programas de teatros, álbuns de viagens, souvenirs. Que não reste nada daquilo que nos é absolutamente pessoal e que não possa ser entre nos dividido.
Fique com a poltrona, seus discos, todos os livros, os quadros, esta jarra. Eu ficarei com estes objetos, um ou outro móvel. Tudo esta razoavelmente dividido. Leve a sua tristeza, eu guardarei a minha.
Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) — A casa demolida — Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1968, pág. 201.

Friday, January 20, 2006

GESTOS IMPRECISOS

Sabe como é. A mão esquerda vai ao encontro dos cabelos, e aí procura a carne do rosto, as bochechas, essa face já um tanto arrepiada. Enquanto isso, e paralelo a isso, a mão direita aguarda sinais sensoriais, para atacar do outro lado, pousar na cintura, com firmeza e delicadeza, nessa união única desses casos de amor. As duas mãos puxariam aquele lindo corpo ao encontro do seu. No caminho pretendido, no entanto, a mão esquerda pára no ombro, hesita, tem dúvida. Pensa que talvez sejam movimentos muito decididos, podendo ser entendidos como desespero. Essa mão fica no ombro, inerte, não consegue subir. Ela espera... Ele abre a boca, tenta dizer algo, não consegue e fecha a boca. Percebe o ridículo dos últimos gestos. E a mão esquerda, meio morta ali no ombro, compõe um quadro de delicada estupidez. Ela, fielmente, espera.
Finalmente a mão sobe dos ombros, passa pelos cabelos, contorna a cabeça na testa, e subitamente se pousa nas costas transformando-se num abraço fraterno, seguido por um beijo na face e então ele diz que “já vai”. Os dois eram amigos há algum tempo, mas nunca gostaram disso de ser amigos simplesmente. A tensão sexual era, aos dois, necessária, e a cada momentos de pecaminosa comunhão, essa tensão parecia que irromperia em lava como num violento vulcão, que, subitamente, volta a dormir sem ter acordado. Os dois acabavam mantendo a compostura já desnecessária. Ele diz, mais uma vez, que vai embora e a beija nas faces. Caminha para a porta, e embaixo dela, pára. Hesita mais uma vez, fica de costas para a moça. Está parado. Ela olha com esperança e aflição...Ele gagueja e finalmente diz que deveriam, os dois, ver o último filme do Spielberg. Ele ouvira falar que era muito bom. Ela diz que sim, e no seu sim há mais não do que em todos os outros “nãos” de sua vida. Sua vontade é mandar voltar a cena. Chamar o roteirista e dar-lhe uns cascudos. E tudo por culpa da mão, pensa ela, pois se essa trabalhasse direito “frames ago” encontraria o seu rosto, a orelha, faria carícias e daí ele olharia para sua própria mão carinhosa, encostada nela. Ela, por sua vez, que estaria com o rosto abaixado, encolhido em volta dessa mão masculina e protetora, olharia para ela, para seus dedos, e como se estabeleceria uma relação de contigüidade entre mão-face-olhos, no final, ele acabaria olhando para os olhos dela. E nesse olhar não caberia um único talvez. O beijo seria só o início. Mas ela ficou lá, sozinha, com suas falsas amigas, num estado entre, raiva total e ainda esperança.
Ele no carro bate a cabeça no volante e blasfema. Tem vontade de voltar e dizer tudo aquilo que ela se preparava para ouvir. Porém ele sabe que, lá chegando, é bem capaz de pedir uma xícara de açúcar, ou o jornal do mês passado. E pensa que não é bom exagerar no patético.
Dias depois, em casa, ela pega o telefone e decide ligar para ele. Já havia quase dois dias que haviam se visto e se tocado. Dois dias que ele havia passado as mãos nos cabelos dela e em sua testa, como quem queria algo, e, então, ido embora. No penúltimo número do telefone dele, ela pára e desliga o aparelho. Vai pra cozinha, sua melhor idéia: fazer um café. Está na hora do café, e a mãe logo chegaria com os pães. A mãe gosta...Que droga! Esse 8 e esse 6 que faltam para completar a chamada e que não saem de sua cabeça.
Ele em casa se tortura; já soltou o telefone 4 vezes e tem medo de desistir pela quinta vez. Tem medo que o fracasso se torne hábito. Ele afinal em nada pensa, liga e diz que o filme do Spielberg está passando naquele cinema perto da casa dela, aquele que tem estacionamento gratuito, no shopping que tem a loja com o sapo de pelúcia de quase 2 metros, feio e grande o bastante para ninguém comprar. Ele a pega em casa, conversam sobre um acidente nuclear numa usina alemã, discutem e acabam decidindo: contrariando a ONU, o chanceler alemão e o próprio presidente do Estados Unidos da América, contra a utilização da energia nuclear. Ela concorda e vê que ele é um rapaz sensível e coerente. Ele não concorda com nada disso, mas vê que fora uma boa idéia ter sido estúpido. A energia nuclear é uma fonte importante e se alguns acidentes acontecem, tudo bem, faz parte, e lembra desses ditados, tipo: “não se faz omelete sem quebrar os ovos”.
Ele preferiu o cinema a um bar ou outra coisa assim, pois ainda não haviam se beijado e no cinema, é óbvio que iriam se beijar. Ele fingia não ter certeza se ela o queria mesmo; e pensava que no cinema ela não teria muito para onde ir. E de lado ele não precisaria olhar nos olhos e nem dizer nada. Escuro, de lado, bastava beijar. Mas era muito idiota. Mesmo para ele. Pensava que deveria beijá-la antes do filme, antes de entrarem no cinema, sabe...Para mostrar que não precisava do escuro, nem do Spielberg, nem de nada disso para ficar com ela. Haviam chegado cedo. Sentados numa cafeteria, tomavam café. Ele sentou muito perto dela, que, aliás, tomava capuccino. Procurou dizer coisas tolas, de que era fã dela, elogiando seu cabelo, perguntando de sua vida, tentando algo que fosse uma “pega”, um atalho, até o beijo. Algo que ele nem mesmo sabia o que era.
Em determinado momento o rapaz pegou na mão da moça (um amigo seu havia dito, certa vez, que o negócio era pegar na mão da gata e contar até 15). No 13, quator...ela resolveu mexer no cabelo. Batimentos cardíacos acelerados (os dele), ela desceu a mão do cabelo e já não encontrou a mão dele, que se encolhia toda tentando calor nos bolsos. Ele falou que estava na hora, e entraram no cinema. Por causa dos 15 segundos, que viraram 13, e do cafés e capuccinos, haviam atrasado e o cinema estava lotado, e agora só havia lugares separados para ambos. Ele sentou mais à frente e ela mais atrás. Ele não viu o filme, só olhava pra trás, mas como no escuro são todas iguais, ele não a achou. Ela achou que depois de “Minority Report” esse era o segundo pior filme de todos os tempos do diretor. Na saída ela comentava do filme que ele, com desinteresse, intervinha com “sins” e “nãos” aleatórios. Ele iria deixá-la em casa, e ela pediu para irem para outro lugar, quem sabe um barzinho. Ele só pensava que ela havia soltado a sua mão na cafeteria, antes dos quinze segundos e por isso queria ir para casa, dormir ou bater uma “punheta”, quem sabe. Ele disse que trabalhava cedo.
Ao parar o carro, em frente à casa da moça, esta foi se despedir cordialmente dele, beijando com neutralidade seu rosto, mas errou, por alguns centímetros, e sua boca, na parte leste, encontrou a parte oeste da boca dele, numa porção realmente ínfima, mas que estremeceu todo o corpo do rapaz. Num descuido do não, e no piscar de olhos da razão ele a agarrou como qualquer primata de outros carnavais, a segurou com firmeza, e se beijaram calorosamente. Ela, já desiludida da vida e nada esperando, teve todo o descontrole real das suas funções cardiorrespiratórias. Ele se sentiu um macho alfa.
Depois ela sorriu, e começou a falar, ele também falou junto, e aí os dois pararam e riram. Um esperando que o outro dissesse, e quando ela ia falar ele também se precipitou, pararam e riram de novo. E foi cômico e patético. Ele então se calou, a acariciou na face, no pescoço passando a outras partes mais carnudas. Ela então falava enquanto ele esquiava na sua pele. Saíram dali e foram pra qualquer lugar, continuar aquele teatro tão lindo de gestos imprecisos.

Tuesday, January 17, 2006

NIETZSCHE - GAIA CIENCIA

§366. Diante de um livro erudito.- Não somos daqueles que só em meios aos livros, estimulados por livros, vêm a ter pensamentos – é nosso hábito pensar ao ar livre, andando,saltando, subindo, dançando, preferivelmente em montes solitários ou próximo ao mar, onde mesmo as trilhas se tornam pensativas. Nossas primeiras perguntas, quanto ao valor de um livro, uma pessoa, uma composição musical, são: ‘É capaz de andar? Mais ainda é capaz de dançar?’... Nós lemos pouco, mas por isso não lemos pior – oh, como rapidamente adivinhamos de que modo alguém chegou a seus pensamentos...(...) No livro de um erudito há quase sempre algo opressivo, oprimido: em algum lugar vem à luz o ‘especialista’, seu zelo, sua gravidade, sua ira, sua sobrestimação do canto no qual fica e tece, sua corcunda – todo especialista tem sua corcunda (...)” . P.267-8

Sunday, January 15, 2006

As bonitas que me perdoem...

Há uma beleza que foge a todo e qualquer padrão. E nada é mais belo do que essa mulher que é linda, quando deveria não o ser. Uma beleza que vem de um lugar desconhecido, pois não há simetria, os olhos não são azuis, e o corpo não compensa em volume, agregado à rigidez, aquilo que falta ao rosto. A idade muitas vezes avançada marca esse rosto que acaba cedendo à devastação. E de tudo que havia para essa mulher ser feia, ela não é de forma alguma. E em alguns casos é linda, e isso dá um gosto na vida tal, que encobre tudo de ruim, inclusive aquilo que é pior: Essas mulheres que deveriam ser lindas e que são feias; talvez pela domesticação já em processo irreversível, e esse olhar obtuso incapaz de um brilho, apesar de formas geométricas esplendidas, de deixar o Euclides boquiaberto.
Uma mulher bela não-contingente, independente de quaisquer fatores. Essa que não pode ser definida por categorias, e que escapa a qualquer enquadramento. Você olha e a sensação física de que ali a vida fez sua casinha e ficou é forte o suficiente para impedir a razão, e a domesticação social, de pensar beleza em termos dessas modelos de propaganda. Em termos de centímetros e quilos. E essa beleza pequena, essa do glamour, das medidas, que a gente propaga e divulga por aí, esconde, essa outra, que é A Beleza. Algumas mulheres velhas contêm nos olhos tanta vida, tanto pesar que muitas vezes é isso que transparece pra mim em forma do belo. Há uma jovem senhora, que trabalha num clube e que me olha nos olhos, com tamanha presença, quando lá chego, que me encanto todo nesse seu olhar generoso, e aí já me coloco a imaginar coisas. Ela é linda de se acordar do lado, depois de uma noite de amor, e é isso. E não ha outro nome. Outras de ventre volumoso, de ancas largas, de corpo, às vezes torto, fraco como um galho. E não chamaria de charme ou estilo, algo assim, é beleza mesmo. E isso me é tão caro, saber que algo que eu não sei o que é e que habita o meu mundo, cria sensações que não foram previamente definidas. “Aquilo que não deveria ser, mas é”. Peço a esse “mas”, toda força do mundo em arrebentar essa idiotia da “exceção”, esse fantasma poderoso, esse inimigo da vida. Esse silenciador de verdades criado pelos procuradores de padrão. Chamar de exceção uma coisa é a melhor maneira de manter o padrão inquestionado. “Toda regra tem exceção”. Muitas vezes não há regra meu chapa, e se você a criou, tentando universalidade, é só porque, VOCÊ, não dá conta de viver com a angustia do instável. Por favor, dirija-se a um analista mais próximo. Essa beleza que independe de fatores é a única coisa que há de real, o resto é só fantasia tola na sua cabeça.

DESPEDIDA

Rubem Braga

"E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho? Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil. Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus. A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo."

Tuesday, January 10, 2006

IDÉIA SIMPLES E ANÁRQUICA



Há três semanas uma colega me contou uma história. E lembrei dela (da história) agora num congresso. Esse congresso era realizado no campus da UFMG, em diferentes prédios de um campus que não poderia, nunca, ser chamado de pequeno. Dessa forma, as pessoas tinham que se deslocar pela universidade. Estamos em novembro e chovia. Sendo assim, havia a aventura de fugir da lama (não a metafórica), e das águas celestes, e com tudo isso as pessoas estavam se tornando um pouco irritadas, e começavam a reparar em um outro problema que era a desorganização do congresso (do qual eu fazia parte, enquanto desorganizador). E reparavam em tudo mais, em todas as coisas que reparamos quando estamos tristes e irritados, na fila do restaurante, no atraso de palestrantes, na falta de sinalização indicando onde aconteceriam os eventos... Isso tudo acabava criando um clima não muito propenso a trocas intelectuais, e também a outras trocas, o que nunca foi bom para o avanço do conhecimento cientifico universal.
Enquanto psicólogo medíocre, mestre do bem-estar entre as pessoas, esse clima humano- que refletia bem aquele do céu acima de nós, o cinza - se espalhava e contaminava todos. Foi aí que eu lembrei da tal história que venho enrolando em contar, a que me foi contada por uma boa amiga, lá na primeira linha. Na Holanda, na década de 60 um grupo de anarquistas (os chamados PROVOS) colocou em prática uma idéia muito linda, que é simplesmente a de abolir, momentaneamente, a propriedade privada. Ao que me parece (anarquistas de plantão me ajudem...) essa ação consistiu em se deixar uma bicicleta branca na cidade, uma bicicleta para o uso de todos, mas que não fosse de ninguém. A bicicleta era usada por quem precisasse e então era deixada em qualquer lugar público, e dessa forma outro vinha e também andava, e assim por diante. A bicicleta era de todos e de ninguém. Se funcionou, funciona ou funcionaria, minha pessimista intuição me diz pra não perguntar, com a finalidade de manter o principio e a beleza da idéia, o que às vezes se sustenta por si. E foi então (lembrando da bicicleta e da lama, da chuva, do campus enorme e das pessoas tendo que atravessá-lo), que pensei que deveríamos comprar guarda-chuvas brancos para esse congresso, visto que as pessoas precisavam dos guarda chuvas pra se deslocar entre os prédios, e aí os deixariam nas portas dos prédios e assim sucessivamente. Colocaríamos em evidência tal ação, o que, num congresso de Psicologia Social, poderia ser entendido como uma intervenção psicossocial, pois provavelmente contribuiria pra criar um sentimento de pertença, de algo que nos une. Achei a idéia genial, e que daria um colorido poético ao cinza de algumas linhas atrás.
Era só comprar guarda-chuvas grandes, uns 20, fazer uma etiqueta plastificada explicando a idéia, colocar um porta guarda-chuvas nas portas dos prédios e tal. Não chegava a ser complicado.
Acontece que resolvi manter essa idéia lá naquele plano paralelo das idéias lindas, como me é de costume. Só tive a idéia, a concebi, gozei um pouco com essa minha criatividade e daí tomei um café e comi um pão de queijo. Mas foi uma boa idéia, porque um guarda-chuva assim como a tal bicicleta são objetos específicos para essas situações, pois a única essência de suas existências, a única coisa que importa é existirem quando se precisa, e que funcionem corretamente. Uma tem a função de transportar pessoas e a outra de impedir que elas se molhem. Nada de fetichismo da mercadoria. Pois já acho que os próximos telefones celulares virão com alma.
Nem fiquei me sentindo tão culpado por mais uma vez nada ter feito, mas isso só porque não choveu mais no congresso, e daí não se precisou mais de guarda-chuvas brancos... e nem pretos.

Friday, January 06, 2006

ANEXO 1

Fim-de-semana em Cabo Frio
Paulo Mendes Campos

Estava tudo mais que perfeito. Cabo Frio é tão fácil. Paisagens se desdobravam como cartas de baralho. Meu corpo funcionava com regularidade. Sístoles, diástoles, inspiração, equilíbrio de energias, a escrita do sono em dia. Física e moralmente a saúde me visitava.
Nova e limpa era a cabana, o chuveiro não estava enguiçado, o cobertor aquecia, o restaurante se salgava nas contas e repetia indefinidamente o Lp de Nat King Cole (que sujeito mais chato!), tinha peixada e vinho.
Em frente, amendoeiras, uma piscina à beira-mar, um barco decorando a praia do clube, um campo de golfinho, ah, tinha até um campo de golfinho.
No outro clube, o do Canal, o Werneck era uma flor de anfitrião, o pessoal de serviço aprendeu logo os nossos nomes, poupando-nos o aborrecimento de mexer em dinheiro, o uísque, autentico, as batatinhas feitas na hora, e ninguém se ria demais ou se mostrava.
No meio do canal uma rede armada para os peixes, graças em lento movimento, um casarão antigo do outro lado, a capoeira com verdes e amarelos dum desbotado bacanérrimo.
As mulheres tomavam sol, reconciliadas com os maridos, num silencio intumescido de gratidão; ah, se os maridos as levaram para o fim-de-semana em Cabo Frio, eram mesmos uns sujeitos excelentes, perdoados de todos os egoísmos e ausências do passado.
Jogamos o futebol, voleibol, ganhamos tudo na mais delicada cordialidade, o Alim improvisou um picadinho na casa dele, todos corados e cansados o suficiente para se esperar da vida uma novidade.
As crianças, ah, as crianças! Estavam esfuziantes, tão emolduradas no momento que nem de dava para pungir o espinho de se organizar tão raramente um programa daqueles.
Céu limpo, aragem, dinheirinho no bolso, luz, tanta luz.
Num paredão avançado para dentro da água, ostras em penca ao alcance das mãos.
O gim é um veneno delicioso de manhã, sobretudo a bordo do Pitangola, sobretudo quando a gente suspende os remos e assiste à seguinte seqüência: long-shot duma menina-e-moça, estirada na relva, louríssima sem escândalo, branca sem acidez, com um maio vermelho de duas peças; perto, um menino atira pedras numa placa de madeira que indica o caminho para o hotel; o peixinho louro diz ao menino para acabar com aquilo, era a filha do dono do hotel; o moleque responde com duas pedras na mão; a garota se levanta, agarra o menino e lhe dá uns tapas merecidos; o garoto se safa, apanha calhaus maiores e volta a destruir a placa; a garota da um pique de cem metros pela estrada, segura o menino, baixa-lhe o sarrafo, aplica-lhe uma chave-de-braço e o conduz a polícia; depois retorna e se estende de novo sobre a relva; o Pitangola aproxima-se; close da cara da menina, angelicalíssima.
Tudo perfeito, tudo mais que perfeito.
Uma sauna rápida, seguida dum mergulho no canal, liga o inferno ao paraíso, e só através do contraste aprendemos a dor e o gozo.
A dor e o gozo.
Era horrível o fim-de-semana em Cabo Frio. Duma imparcialidade desumana. Dentro do meu bem-estar físico e psíquico, estava arrasado. Que tinha eu com tudo aquilo? Que tem o ser humano com o bem-estar?
Ou me entendem agora ou nunca: quero dizer o seguinte: o sol, o azul o à toa, essas coisas estraçalham meus fantasmas, perdia-me deles. Sem minhas atribulações, sou o atribulado, a própria atribulação; sem minhas angustias, sou a angustia; sem minhas infelicidades, sou o infeliz. Descobri isso finalmente. A felicidade, madame é horrível. Que horror, era horrível! Espapaçado ao sol, entre amigos, na juventude do fim-de-semana, com a aragem, as ostras, o peixinho de vermelho, o golfinho, a plenitude das crianças, eu não sei, não chego até lá, me descaminho, acabo me doendo até os ossos. Sem sofrer sofro demais. Assim tudo, Senhor, menos ser feliz. Minha libertação não é essa, essa eu não agüento. Tudo menos achar que a vida é boa. Deus me abandonou à felicidade e me dei mal.
Afortunadamente, domingo ao crepúsculo, fiel crepúsculo, no restaurante apenumbrado, antes do regresso, as fúrias e as penas voltaram ao meu coração. Eu as deixei entrar com alívio e elas se assentaram todas em torno de mim. E prosseguiram, graças ao bom Deus, em assembléia permanente.

Thursday, January 05, 2006

É SABINO, VOCÊ TAMBÉM NÃO SABE A FALTA QUE ELA ME FAZ...

Rafael Prosdocimi

Desligo a música que tocava, curto o silêncio, e com isso paro de pensar em outras coisas que não na nossa curta, e já antiga história Agora faz silêncio. Como é difícil ter silêncio nessa cidade, nessa casa. E eu que sempre gostei muito das segundas e das quartas-feiras, ando preferindo os fins-de-semana, principalmente os domingos, apenas pelo silêncio. E é nesse silêncio que ela me vem à cabeça. Já faz algum tempo que não a vejo. Materialmente. Faz mais tempo ainda que não a olho nos olhos e digo do mundo e da vida sem produzir sonoridades. Um tempo suficiente pra olhar pra trás com ternura, tristeza e um certo desprendimento de mim mesmo. Já sinto que aquela nossa breve história não nos pertence. Isso significa que acabou, para sempre. Essa ultima frase me entristece, ainda mais lida em voz alta, e espero estar enganado. Sei que não estou, mas afinal o que tenho eu com aquilo que “sei”...
Sei que quando na sala de aula, ou em qualquer outro lugar, armado de uma caneta e encarando um papel; é ela, é o seu nome que me vem à cabeça. Escrevo seu nome todo no papel. “A. M. A”. Nunca tinha visto assim, pensado dessa forma. Seu nome completo, junto, ama. Amava. Deveria tê-la amado. Ao menos mais, de forma etérea, segura e progressiva.
Escrevo seu nome como a tentar circunscrever seu encanto, dar nome, entender quem ela é. Mesmo que nunca tenha sido perfeita. Como diria o Bob Dylan, “Just like a woman”. Uma mulher com alguns medos, preconceitos e paixões. Com algumas idéias e um tanto delas erradas e tristes.
Essa moça encontrou um rapaz muito assustado com a novidade das mulheres, e isso tudo representado pelo encontro da pele e do olhar, isso que é “mais grande”, dessa cumplicidade que há entre duas pessoas. Ah, esse rapaz aprendeu alguma coisa com ela. E sei que também ensinou. Foram apenas 10 meses. E mais algum tempo de distensão, indecisão, de arrogância dele. Tempo esse que culminou numa última, linda, cruel e dilacerante noite.

“She makes love, just like a woman (…)
But she breaks just like a little girl.”

Ele, infelizmente, achava que havia um mundo de outras “possibilidades”, de “contingências” de “novidades” (já não sabe quais). Esse desconfiado do “amor”. Um explorador dado a poesias. Dado a encarar desconhecidas por detrás de medos e pára-brisas, à procura de beleza, sorriso...Sabe? Essas coisas. E ela já tão devotadamente amorosa, pensando em coisas certas e fixas, pautada numa realidade muito definida. Nele, esse fenômeno a dois, tinha sempre o súbito despertar da poesia. Essa que fica ressonando até encontrar palavras. Mas ela vivia seu romance como qualquer “milady” de um livro do século XVIII. Havia pássaros na sua vida, e sinfonias. E a cerca, de sua casa, seria branca, e a férias seriam em Cabo Frio, odioso Cabo Frio, que já não existe. E ele se afundava nessa tragédia que se tornava a sua vida fácil, sentia que precisava tentar lonjuras, e abismos, e angustias maiores. E a poesia a dois foi se escasseando para ele. Surgia o misterioso Mundo. E do outro lado Cabo Frio se mostrava o pesadelo para a poesia. Essa vida besta (e angustiante) como tão belamente me contou Paulo Mendes Campos. Mas a verdade é que hoje ela faz muita falta no sentido do dia, do dia e da noite. E não há angustia maior. A falta do ventre, dos seios, dos olhos, das marcas. Do cheiro. Desse contato com a vida, maior do que ler “e-mails”, atender telefonemas, e, quando muito, dizer: “bom dia, tudo bom, né?”, para alguém que passa a caminho de lugar nenhum.
Ela preenchia a minha Vida, e agora, nos últimos meses, vem me visitando com mais freqüência do que o necessário. Do que o suportável. Mesmo com o tal desprendimento – mentira - e ternura, tristeza.
A.M.A, tinha muitas dores, e de todas eu sempre fugi. Sinto que ela encontrou seu porto seguro, para que a tal Vida, essa que eu já não suporto também, não a incomodasse mais. Provavelmente irá agora no próximo show do Skank, deve ter visto o ultimo capítulo da novela, e amanhã, no bar, vai reclamar e fazer coro sobre a violência de hoje em dia. A.M.A trabalhará muito, ganhará dinheiro e de vez em quando lerá minhas pobres coisas, no parar de sua vida; achará algo bonito da nossa história, e logo se preocupará em fazer qualquer coisa que despiste o pensamento. Eu continuarei eternamente muito disposto a ser uma eterna promessa de qualquer coisa que nunca será nada. Perguntarei-me muito “Como se chegar a ser o que se é?”. E nunca terei a tal resposta.

Um pouco mais ainda, um recado pessoal, para você, que eu covardemente (como é de meu feitio) coloco aqui no meio de coisas vagas e gerais, com uma expectativa abstrata de que chegue a você. Ainda te procuro nesse seu carro de marca japonesa que nunca lembro direito a cor, se é dourado ou cinza (chumbo). Preferiria que ele fosse dourado. Procuro você dentro do carro dessa marca, de qualquer uma dessas duas cores, mas acabo não resistindo e te buscando em qualquer outro carro, em qualquer outro lugar da vida, até em bicicleta ou restaurante, cemitério ou jet ski. Antes era mais fácil, pois te buscava naquele carro prata, 1984, testemunha muda e coadjuvante do traumatizante, lindo, e épico Ultimo Dia.
Ah, mas se fosse só a rua que me prendesse à sua lembrança. Mas esta casa minha, de tudo, tem um pouco da sua fantasmática presença. Em cada canto lembro de algo seu que ficou, na parede, na mesa de vidro, na cama. E não ficou pouco. A varanda, às vezes trancada, às vezes aberta e por muitas testemunha de um amor veloz. E você se lembra daquelas bolas de vidro que ficavam (e ainda ficam), em cima da mesa da sala? Lembra...Aquelas bolas que num abrir muito inesperado de portas foram reviradas na velocidade do despertar para a realidade e se bateram uma com a outra, e ambas bateram no suporte de vidro, que quebrou um pouquinho. E hoje resta um buraco nesse suporte de vidro (e não só nele). A cama hoje solitária, quieta. Aqui tudo me lembra você. Ainda mais agora, no final do ano. O melhor natal da vida de uma criança, um moleque cheio de esperança aos 20 anos de idade. Aquele arroz piemontês, lembra?
Havia vida no meu mundo, entre as minhas monótonas diástoles e sístoles. Seus ossos e sua carne correspondiam e respondiam fielmente ao meu corpo e tudo isso era tão banal, tão automático, havia tão pouco esforço de minha parte em fazer aquilo de bom acontecer, que eu achava que era fácil de se encontrar por aí. Nessas outras. E nunca foi. A banalidade era parte do plano do Demônio Maligno, em me enganar fazendo achar que havia algo chamado Mundo. Não existe o Mundo, não há Cabo Frio, e o que dizer de Búzios? Ah... Búzios, aquele seu vestido (diabólico vestido que você nunca mais usou), e ainda a senhorita caindo como uma bêbada naquela rua de grandes pedras e muitos dólares. Lembra?
E para os reacionários de plantão e para você também, saiba que não é do tempo que tenho saudade. Saudades sinceras de sua risada absurda, meio soluçada; de seus olhos, que brilhavam como se você chorasse; e de seus ossos, todos eles, pontudos que quase doíam, senão me fizessem amar. O tempo não existia nessa nossa equação. Aquele tempo era só o de estarmos sós. E nunca mais me houve paz como aquela. E num depois, que é ainda hoje, tento e tentei em vão. Não muito. Já não acredito em grandes números. Mas tentei. Que a sua vida seja boa e que a cerca seja branca, e que sempre haja sol em Cabo Frio. Que você se lembre de mim um pouco de vez em quando. Aquele seu choro, o seu choro solitário na minha cama. A sua conclusão sábia e triste sobre o nosso óbvio fim, marcada pelas suas lágrimas, pulsa, lateja na minha cabeça. E eu que nada entendi daquilo (ainda não entendo), prossegui na minha ilusão tenra, doce e despreocupada, de sempre um possível e tranqüilo amanhã, como agi sempre com todo o nosso amor. Mas mesmo apesar desse tranqüilo amanhã, e, talvez, por um entendimento inconsciente das coisas, eu já vinha, progressivamente, “te decorando pra levar comigo". E te levei para sempre quando você se foi.

Tuesday, January 03, 2006

Dois amigos conversam...

Chico e Rafa Prós
Era mais um Natal, outro desses que passam ano após ano sem a nossa consulta, mas aquele foi um pouco diferente. Deixamos as crianças, as mulheres – todas elas – e também a suposta alegria típica deste dia fora de nossa sala, nosso mundo e vida. Ficamos só nós dois, ali na varanda. Havia também o Atlântico. Como era importante o Atlântico. Se havia fartura, era só de cerveja e tristeza, acompanhadas de um ou outro tira-gosto. Ambos com 56 anos, nesse desolado ano de 1969, ano que o homem chegou à lua, a mesma que agora ilumina o mar e a praia de uma forma tão sutil. Eu, só um pouco mais velho que ele em rotações astrais, mas tão “envilecido” que na nossa conversa sentia-me como um avô frente a um rapaz inquieto e apaixonado pela vida; vida essa, a dele, que progride esvaindo-se em uísque e mulheres, ainda não sei bem se mais do primeiro ou do segundo. É bem sabido, inclusive, que são exatamente essas – e que fique bem claro que me refiro aqui às mulheres, não ao santo uísque – as coisas que mais acabam com a vida de um homem, mas também apenas aquilo que nos permite abençoar e cobrir com um véu de beleza a nossa Vida, que surgiu mesmo para um dia chegar se acabar. Ao contrário da minha – agora vida, não mulher – que se vai em tédio e jantar requentado do almoço. Ele poeta, boêmio e apaixonado, cada vez mais e sempre por várias mulheres, uma de cada vez, no tempo do “enquanto dure”. Mas ficava apaixonado mesmo, eu diria ser ele o mais honesto dos homens com seu amor. Às vezes olho pro sujeito e penso, “Ou é o maior apaixonado do mundo ou o maior dos enganadores, e engana até a si mesmo”, pois se nem nas minhas próprias paixões, moldadas manualmente com todo romantismo de uma pequena escola de Cachoeiro do Itapemirim, acredito piamente... Principalmente depois que elas passam, fico invariavelmente sem saber se suas intensidades foram mesmo reais e fiéis, verdade mesmo é que elas sempre passam e aí ficam tão pouco.
No Natal combinamos de trocar toda festividade pela varanda, pela cerveja e pela conversa despretensiosa, não necessariamente nesta ordem. As crianças, que já nem eram tão crianças assim, que se virassem! Assim como as mulheres ou pelo menos a dele que durava naquele instante, já que a minha, enquanto um ser pelo qual devemos nos juntar em festividade familiares, jamais se encontrou na lista de convidados de minha vida. Já percebi que meus anseios amorosos são por paixões rasteiras com quarto e sala a alguns quilômetros do meu apartamento. Pensamos em passar este Natal bêbados e melancólicos de verdade, e não como de costume, empanturrados e razoavelmente alcoolizados, tontos daquela forma mediana que ainda preserva a consciência dura de nossa tristeza. Brindamos as cervejas, já que fazia uma noite quente no Rio de Janeiro e aqui nos trópicos prefiro a gelada cevada ao formal scotch.
A conversa não poderia descambar pra outra coisa que não fossem as mulheres. Não essas nossas, mas todas as outras, uma forma idealizada deste ser. Ele, um amador inconfundível e declarado, e eu que me dizem sisudo e bravo, mas sem dúvida ambos apaixonados por elas: lindos, fugidios e mágicos seres. Para ele as mulheres eram como anjos e deviam tudo, toda a energia da vida e de sua beleza, para a devoção ao amor e ao homem. Assim, todas deviam ter essa frágil força de se fazer qualquer coisa por um grande amor, esse tipo de força que aguarda e chora em silêncio pelo seu objeto de desejo. Eu nunca concordaria com ele e então contra-ataquei: “As mulheres, pelo menos aquelas a quem amamos, devem tornar possível a visão de si mesmas como uma faca a espreitar-nos e com uma real possibilidade de cravarem-se quando menos esperemos em nossas costas. Uma mulher que nunca fará uma coisa dessas não me vale um ‘Oi’”, “Você não entende mesmo de mulheres, preste atenção, a mulher é puro amor, é sentimento, é paixão... e se hoje elas se fazem de racionais, objetivas, isso é só o que nós fizemos com elas, nós homens e essa sociedade pseudo-igualitária. Temos mais é que tentarmos reaver essas mulheres belas e fortes, mas fortes na arte de viver só sentimento”, “Mulheres que sejam só sentimento, poeta, entediam horrores. Gosto de encará-las com um medo indizível desse pronome possessivo, de forma a semear nela um receio de que ela de fato não seja minha, de forma que sabia que antes de tudo eu é que sou meu, nunca dela. Não confio a pessoa alguma a coisa que me é mais cara, minha própria vida, e penso que te machucas muito ao fazê-lo. As mulheres que mais apaixonei foram essas que me abandonaram, não como quem rompe comigo, mas como quem se reavê enquanto criatura”, “Que criatura? E para que serviria a mulher se não fosse o amor, única possibilidade real de vida, de liberdade”.
Ficamos um pouco em silêncio, jamais conseguiria convencê-lo disso ou daquilo e nem ele a mim. Tomamos mais uma cerveja e ele então passou para o uísque e para o violão. Naquele dia compusemos uma música que na manhã seguinte decidimos como melhor por embolarmos o papel e jogarmos à iemanjá, não deveria existir nesse mundo nada tão melancólico assim. Mas ainda me lembro da melodia...

Thursday, December 29, 2005

UMA BOA MORTE PARA AS SENHORAS QUE SE VÃO...



Minhas senhoras, a todas vocês que se despedem do planeta, por agora, todas que estão a falecer junto dos seus tecidos e órgãos, e em especial a vocês que já vem morrendo lentamente ao longo de todos esses anos. Desejo a todas vocês uma boa-morte nesses próximos dias ou, no mais tardar, semanas. É o que desejo também àquelas que pegarão apenas o próximo trem, numa estação seguinte (talvez no outono). Peço que aguardem a partida sem angustia. Ainda há netos para abraçar, e filhos para olhar ternamente, e então pensar, calada, o que se fez de errado para aquela, e como aquele outro deu tão certo na vida. Logo será a vez de vocês e podem ter certeza que todas irão. É por isso que desejo uma boa morte, já que esta é certa. Que na hora do seu ultimo suspiro haja uma mão para apertar. Tenha certeza que, para os que ficam, a morte certa e determinada não dói menos do que àquela imprevisível, pois mesmo a certeza de morrer sempre traz em si a esperança de mais um dia, mais um dia, mais um dia numa sucessão infinita.
Que essa mão que te aperta seja de alguém que você, secretamente, goste mais. Temos poucas mãos, e muitos filhos, netos, amigos, e de todos, sempre sabemos, no intimo, de quem gostaríamos de ver, sentir, tentar em vão um ultimo sinal, uma ultima comunicação, no derradeiro momento.
Que nos seus olhos haja apenas resignação, calma, e sincera alegria de ter vivido. Mesmo que tudo isso seja falso. Os velhos são sempre bons, sempre parecem bons, e devem permanecer bons velhos na hora da morte. Os crimes, violências, estupros cometidos, somem nesses olhos baixos e fracos. “O fim é um imenso sossego e um grande perdão”. Ao menos deveria ser. Afaste da cabeça, minha boa senhora, seus erros. Mas se der, ao menos, fale aquilo que você gostaria de ter falado pra filha do meio em maio de 83, mas que não conseguiu. Isso que te veio à cabeça, todas as vezes que você a viu, desde aquele dia. Lembre-se que não a verá mais. Permita-se todo o desvario na vontade. Sua palavra terá uma importância enorme e, portanto, não a gaste falando mal dos outros, mesmo que seja sincero. Ao menos que essa sua palavra negativa traga, aos que ficam, movimento, vontade, revolta que seja. Mas prefiro que você seja uma velhinha formal e idônea para as coisas erradas que acha, pensa e vê. Não maldiga por Orgulho. Leve-O consigo. Ele aqui, apenas perturbará o dizer do seu nome, nos fins de tarde e nas festas da família (que nunca mais serão as mesmas), quando a sua lembrança rasgará o peito. Esse seu orgulho só ira perturbar na lembrança dos seus gestos e machucará eternamente aqueles que tanto gostas. Impeça isso. Deixe o orgulho junto com as flores no seu caixão.
Que no momento mesmo da sua morte haja serenidade, olhar e mão. E que na sua cabeça paire, como um beija-flor, a melhor lembrança da vida. Um filho sorrindo, uma noite de amor, sua mãe te abraçando - essa já morta há tanto tempo, a casa, o sítio, os lugares de colher sorriso na infância. Que seja lembrança ao mesmo tempo boa e calma. Nada muito repentino, ou violento, denso. Que apenas traga torpor a mente, e que nesse tempo final você possa afirmar: “que boa a minha vida e o que eu não faria para vivê-la toda de novo”. Que essa frase tenha a força de apagar um por um os erros da sua vida. Que você não se lembre do amor de verdade que nunca fora vivido, do aborto vergonhoso, do filho nascido e, todos os dias, indesejado, de um sonho nunca tentado ou de uma vontade sempre reprimida. Que nesse fim você sorria, e se lembre desse ultimo bisneto, ou bisneta que tenha sorrido claro naquele dia de domingo. E que esse sorriso tenha a força retroativa de trazer a tona todas essas crianças que você acompanhou da fralda à lama, do bico à glória, em todos esses anos. E por fim desejo que você se orgulhe muito da sua família, mesmo que muito do você, que poderia ter sido, tenha ficado por aí, nas latas de lixo, junto com toda essa fralda suja...

CANTICO NEGRO

José Régio
Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí

Monday, December 26, 2005

Série: Se ninguém leu Rubem Braga, Sérgio Porto ou Antonio Maria, porque haveriam de ler, afinal, Rafael Prosdocimi...

Dar um Jeitinho
Paulo Mendes Campos


Escrevi na semana passada que há duas constantes na maneira de ser do brasileiro: a capacidade de adiar e a capacidade de dar um jeito. Citei um livro francês sobre o Brasil, no qual o autor dizia que só existe uma palavra importante entre os brasileiro: amanhã.
Pois fui ler também o livro Brazilian Adventure, de 1933, do inglês Peter Fleming, marido da atriz Célia Johnsonm integrante da comitiva que andou por aqui há trinta anos em busca do coronel Fawcett. No capítulo dedicado ao Rio, sem dúvida a capital do amanhã, achei este pedaço: “A procrastinação por principio- a procrastinação pela própria procrastinação- foi uma coisa com a qual aprendi depressa a contar. Aprendi a necessidade de resignação, a psicologia da resignação: tudo, menos a resignação em si mesma. No fim extremo, contrariando o meu mais justo aviso, sabendo a futilidade disso, continuei a emgambelar, a insultar, a ameaçar, a subordinar os procrastinadores, tentando diminuir a demora. Nunca me valeu de nada. Não e possível evita-la. Não há nada a fazer contra isso.
Não é verdade, Mr. Fleming: há uma forma de vencer a interminável procrastinação brasileira: é dar um jeitinho. O inglês apelou para a ignorância, a sedução, o suborno. Mas o jeito era dar um jeito.
Dar um jeito é outra disposição cem por cento nacional, inencontrável em qualquer outra parte do mundo. Dar um jeito é um talento brasileiro, coisa que a pessoa de fora não pode entender o praticar, a não ser depois de viver 10 anos entre nós, bebendo cachaça conosco, adorando feijoada, e jogando no bicho. É preciso ser bem brasileiro para se ter o animo e a graça de dar um jeitinho numa situação inajeitável. Em vez de cantar o Hino Nacional, a meu ver, o candidato à naturalização deveria passar por uma prova: dar o jeitinho numa situação moderadamente enrolada.
Mas chegou a minha vez de dar um jeito nesta crônica: há vários anos andou por aqui uma repórter alemã que tive o prazer de conhecer. Tendo de realizar algumas incursões jornalísticas pelo país, a moça freqüentemente expunha problemas de ordem pratica a confrades brasileiros. Reparou logo, espantada, que os nossos jornalistas reagiam sempre do mesmo modo aos galhos que ela apresentava: vamos dar um jeito. E o sujeito pegava o telefone, falava com uma porção de gente, e dava um jeito. Sempre dava um jeito.
Mas, afinal o que era dar um jeito? Na Alemanha não tem disso, não; lá a coisa pode ser ou não poder ser.
Tentei explicar-lhe, sem sucesso, a teoria fundamental dedar um jeito, ciência que, se difundida a tempo na Europa, teria evitado duas guerras carniceiras. A jovem alemã começou a fazer tantas perguntas esclarecedoras, que resolvi passar a aula prática. Entramos na casa comercial dum amigo meu, comerciante cem por cento, relacionado apenas com seus negócios e fregueses, homem de passar o dia todo e as primeiras horas da noite dentro da loja. Pessoa inadequada, portanto para resolver a questão que forjei no momento de parceria com a jornalista.
Apresentei ele a ela e fui desembrulhando a mentira: o pai da moça morava na Alemanha Oriental: tinha fugido para a Alemanha Ocidental; pretendia no momento retornar à Alemanha Oriental, mas temia ser preso; era preciso evitar que o pai da moça fosse preso. Que se podia fazer?
Meu amigo comerciante ouviu tudo atento, sem o menor sinal de surpresa, metido logo no seu papel de mediador, como se fosse o próprio secretário das Nações Unidas. Qual! O próprio secretário das Nações Unidas não teria escutado a conversa com tão extraordinária naturalidade. A par do estranho problema, meu amigo deu um olhar compreensivo para a jornalista, olhou para mim, depois para o teto, tirou uma fumaça no cigarro e disse gravemente: “O negócio é meio difícil...é...esta é meio complicada....Mas, vamos ver se a gente dá um jeito.”
Puxou uma caderneta do bolso, percorreu-lhe as páginas, e murmurou com a mais comovente seriedade: “Deixa-me ver antes de tudo quem eu conheço que se de com o Ministro da Relações Exteriores.”
A jornalista alemã ficou boquiaberta.





Friday, December 23, 2005

DADOS NO AR

Rafael Prosdocimi

“Quem é você? Diga logo que eu quero saber o seu jogo, que eu quero morrer no seu bloco, que eu quero me arder no seu fogo...”

Não diga, silêncio. Quem é você, é uma pergunta feita e só. Feita para que dali surja outra pergunta. E outra e outra. Já surge alguém na minha vista. Outras, algumas, poucas.
Nesses dados suspensos no ar, na vida. Dados que são belos enquanto no ar, enquanto não são ainda nada, e mesmo tudo, e qualquer coisa que eu quiser. Não precisa ser carnaval, não precisa de máscaras, mas não me diga quem é você. Pelo menos não ainda. É belo falar com uma mulher, pensar nos seus jeitos, sem que ela exista, sem que haja um nome, e manias, e medos. Acho que é essa a minha sina, o meu pecado, a minha cruz. Viver de desconhecimento, da ilusão que é mortífera, a que quando revelada, desfaz todo o nó da vida.
E você me vem agora, dizer do pai, do futebol, dos termos psicológicos, de uma paixão passada. Ah, moça tenho um desejo muito enorme de saber quem é você e não saber, e que você me perdoe, por isso, de tão tolo e covarde. Você já me conhece, não seria algo novo. Você não é uma desconhecida, nunca foi, é uma mulher conhecida, mas um mistério, que apenas me suspende, um pouco, do Tédio.
Não sou atencioso com você como quem escolhe ser atencioso (gentil ou amável) e essas detestáveis coisas. Você me escreveu coisas tão belas aqui, que deu gosto nisso tudo, nesse barulho, nesse som que ando e andas fazendo. “Anônimo disse...”. Anônimo é uma pessoa, alguém que não diz o nome. Ah... Mas atrás da minha tela, na frente da sua, jaz uma mulher que lembra, sorri, e fica em dúvida. Lembra talvez dos nossos momentos. Sorri das minhas gracinhas, tão pontuais que chegam já na beirada, no cume do sorriso, e esticam os lábios, de lado. Mais um pouco ainda. A dúvida, dessa revelação lenta, dolorosa, viva. Vejo carne, e sangue nas suas palavras. Um sangue seco.
“Ganhei o dia com o seu comentário”. Essa sua colocação foi como um gancho de esquerda, nos rins, seguida por um murro na cara. Um golpe (será, premeditado?) que derruba. Essa frase tão minha. Esses dias que só eu perco. E perco com toda a força de quem se faz perder. Ninguém mais me faz perder os meus dias, além de mim. E se você não me fez ganhar o dia (acho que não, ando “expert” em me derrubar) conseguiu, ao menos, revitalizar algo que se apagava (espero que não para apenas um último suspiro). Eu que uma vez tive coragem de mandar para uma moça, que poderia, em termos, ser você, a frase musical “Você me ligou naquela tarde vazia e me valeu o dia”, com toda a breguice do mundo e mais uma vez vejo você me valendo o dia, em mensagens postadas no meu blog (eu que tinha tanta vocação pra nunca ter um blog na vida).
Num outro comentário, a senhorita me mandou ler o texto da Marina Colasanti (não entendi, em absoluto a ligação com o outro texto que te mandei, da desilusão, do Thomas Mann). Mas esse texto lindo que diz “a gente se acostuma, mas não devia”. Essa frase mágica, frase que nos desperta do que chamamos: realidade (“ta lá um corpo estendido no chão”, violência, descriminação, misérias carnais, espirituais, mediocridade, falsas vontades, e quando vontades, só as de superfície). Frase que lembra que antes de acontecer, nós nos acostumamos e não devíamos. E de costume em costume logo estaremos casados com qualquer coisa, alimentando bactérias, filhos e vírus todos esses seres que num futuro próximo só pensarão em nos sugar toda a energia, e também trabalharemos em qualquer coisa que não vale a pena dizer, levando menino ao zoológico, e ao fim do dia sentando numa cadeira com “a boca escancarada cheia de dentes”. È esse costume que não quero. É isso. É o número que saí dos dados no ar. E o numero que fica. E consome.
Não mais dados no ar. Sei lá se suporto isso de dados cravados no chão.
Que os dados permaneçam no ar. Mas a gente também se acostuma com a solidão e a inquietude e também não devia. Assim como nos acostumamos com um corpo ao lado, e a segurança do corpo ao lado, as nossas convicções, os nossos escuros preservados e distantes, lacrados. Quantas vezes não vejo casais, e por um segundo sinto ciúme dessa cumplicidade, por um segundo não me pergunto quem seria o otário da situação, e o quanto não estarão eles Mortos, enquanto de cá tomo minha triste cerveja, e falo qualquer tolice tentando profundidade.
Você, moça, acaba despertando esse meu Ouro mesmo que Tolo e que brilhe apenas à meia luz.

Tuesday, December 13, 2005

ERRO E ACASO

Pensei nessas meninas bonitas, sempre elas que retiram das minhas vontades, qualquer energia necessária para ser um revolucionário perdido, nesses anos 2000. Alguém para mudar o mundo, salvar o planeta do terrível e maléfico “Pequeno Burguês”. Essa entidade que vem e invade nossos corpos e mentes. Essas meninas, que esvaziam minhas ânsias revolucionárias, andam em pleno dia, em qualquer lugar, com uma calculadora na mão. Uma menina que, ao te conhecer, faz as contas: dinheiro, lugar que o pretendente mora, interesses, ambição, “filho de quem” e por aí vai. Somam tudo e pensam se estão interessadas ou não. Tira-se então, a partir dessas contas, a porcentagem de tesão, da vontade, do amor que será despendido. E mesmo as meninas feias, e as pobres, e as japonesas e turcas, fazem tudo a mesma coisa. E até talvez os meninos, e eu, quem sabe. Qual a companhia mais cômoda para você? Esse amor que é geográfico, monetário, racial e narcisista.
Vejo, em todas as estações do ano, e com mais continuidade que o suportável, casais mecânicos, como qualquer outra engrenagem de um relógio velho, ou de uma maquinaria qualquer. Um casal que funciona por procedimentos. Se...Então. Esses casais que se engolem, que se agüentam como o menino doente que toma o remédio amargo, apenas porque é pior ser consumido pela doença e morrer. Parece que a vida, em casal, só pode ser essa a do suportável e nada além (retirem, por favor, a hipocrisia da sala). Acho sempre que as pessoas não agüentam a solidão, (também não precisam amá-la, e disso, sei eu). Basta apenas dialogar com ela, um pouquinho que seja, basta entender que falar, fazer som, não significa comunicação, entendimento, compreensão e tudo isso que nós, psicólogos de merda (como diria o Chico) sabemos. Basta gostar um pouco dessas coisinhas, que passam na nossa cabeça, quando estamos sozinhos. Acho que então teríamos mais o que dizer, mostrar e sentir. As pessoas não agüentam a solidão porque no escuro de seus quartos, junto a suas sombras, elas têm que se haver consigo mesmas. E disso não “dãomos” conta.
Foi andando na rua, sozinho, num sábado, que percebi, senti na verdade... (como quase sempre acontece comigo). Senti com todo a força do mundo, como é um privilégio ser filho de meus pais. Esses propagadores do erro, da estupidez, da paixão. Os meus pais. Esforço por lembrar dos dois juntos, discutindo futilidades, andando na rua no domingo, imersos nas contas no cotidiano, na vida real, de mãos dadas vendo televisão no domingo. Nunca consegui imaginar nenhuma dessas cenas. Nada, ao pensar nessas situações banais, vem de pensamento, nenhuma imagem possível, nada que demonstrasse uma coerência admitida, um arranjo provável para a existência hermética desses dois. Sempre pensei neles como um erro, via isso com tristeza, acreditando na harmonia e na coerência que se faz necessário entre um casal. Desse eterno silencio e calma e quietude e cessão e paz e a quinta de Mozart.
E voltava para essas meninas, que, com calculadoras, pensam quantos anos são precisos namorar, noivar, casar, ter filhos. De quanto dinheiro precisarão elas para sobreviver, para estarem vivas. Retornava a imagem para os meus pais, e em como, de fato, eu não sou filho dessas mulheres que fazem contas, e muito menos desses homens que se tornam números digitais, com uma facilidade acima do normal. Se minha mãe usa a calculadora (e ela usa), é só depois de ter cometido todos os erros da vida, e disso, eu tenho muito orgulho.
Mas os dois tão profundamente separados na vida, ele tão intelectual quanto um conquistador, arrogante e pretensioso, disposto a mil lorotas metafísicas. E minha mãe uma perfeita patricinha, mal-acostumada com esses namorados babacas que lembram o Travolta, nos tempos da brilhantina. Tão leves e alegres. Ela provavelmente queria uma casa grande, e jardim, e batedeira elétrica e um carro e casa em Cabo Frio, aquele paraíso na Terra. E ele provavelmente não queria nada, pois penso que ele nunca quis nada dessas coisas.
Esse erro que me faz alterar a frase, “errar é humano”, reforçando que: “apenas errar é humano”. Todo o resto conseqüente, todos os acertos, diz apenas das máquinas, dos procedimentos frios e enfadonhos. Ela se apaixonou por esse rapaz, achando graça talvez nas suas maluquices (ah, e se disso eu não sei) e ele a achou linda demais, linda pra ficar olhando muito tempo, meia eternidade talvez (ah... mas não apenas). Eles cometeram esse erro de ficarem juntos. E foi um erro tão profundamente belo que acabou, num acaso, gerando o primeiro filho. Meu irmão nasceu no mais lindo encontro do erro com o acaso, o erro da paixão com o acaso da concepção forçada pela Vida, sem a violência provocada pela razão e pela calculadora, sem a conta das fraldas que nunca deveria se feita. E depois veio eu e minha irmã, e a ponta desse acaso nunca deixou de visitar nossos nascimentos. Eu, desejo concreto de minha mãe, desconhecimento assentido de meu pai, e minha irmã um pouco filha dos erros dos instrumentos (única parte de humanidade que cabe aos pobres). Filha do DIU.
Que alegria saber que foi de humanidade e vida e amor, e que de tudo isso vim ao mundo, e agora, e agora, querem que eu me enamore, me case com essas que rastejam e passam suas lágrimas, seus poentes, todas as luas, a fazer contas?
Eu não sei muito mais dessa minha vida. Um sincero, não sei o que eu quero, não sei do acordar bem disposto, só sei que luto e perco todos os dias com o “pequeno burguês” que acaba me levando pra tomar um chope, e me faz achar que a vida é leve e boa e que é isso aí.
Não sei pra onde vou, nem com quem, mas sei (e disso agora, EU SEI) que não vou por aí e nem com você, mocinha, de calculadora na mão.

Monday, December 05, 2005

Eu também Raduan, eu também...

Ventre-seco- Raduan Nassar
"(...)Está muito certa aquela tua amiga frenética quando te diz que sou "incapaz de curtir gentes maravilhosas". Sou incapaz mesmo, não gosto de "gentes maravilhosas", não gosto de gente, para abreviar minhas preferências.(...)
Pouco se me dá, Paula, se mudam a mão de trânsito, as pedras do calçamento ou o nome da minha rua, afinal, já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio (...)
Não me telefone, não estacione mais o carro na porta do meu prédio, não mande terceiros me revelarem que você ainda existe, e nem tudo o mais que você faz de costume, pois recorrendo a esses expedientes você só consegue me aporrinhar. Versátil como você é, desempenhe mais este papel: o de mulher resignada que sai de vez do meu caminho".